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Filosofia e Ciência
JBDH3
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A interpelação entre ciência e filosofia e a pergunta pela origem grega
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A questão central é a irredutibilidade ou não entre ciência e filosofia, e sua possível encontro, considerando que a ciência historicamente interpelou o filósofo, desafiando sua autonomia.
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Para os gregos, a “epistémē” pode ser “mathēma” ou versar sobre “mathēmata”, mas há uma “epistémē” sem “mathēma”, que não é tematizável como as coisas que se podem aprender, mas que surge como um lampejo de luz, exigindo atenção e paciência em torno da questão.
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Há um círculo salutar entre o saber e as ciências, onde a verdadeira “epistemologia” não desce do saber às ciências, mas remonta das ciências ao saber, e o ponto de partida de uma ciência é sempre “hypótheton”, não no sentido moderno, mas no sentido grego de algo que está por baixo, como a luz do sol é hipotética à luz da lua.
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Para Platão, os matemáticos são “selenitas”, pois se contentam com o “hypótheton”, um conhecimento que deixa o pensamento num claro-escuro lunar, insuficiente para o filósofo, que busca uma luz mais alta, sendo a “epistémē” meta-matemática.
O prodigioso reviramento com Galileu e a instituição da matemática como prolegômeno-
Esse giro se efetiva tematicamente com Galileu, que afirma que a natureza fala em “língua matemática”, contrariando Aristóteles, para quem a física pressupunha uma filosofia primeira, enquanto Galileu diz que a filosofia primeira da física é a matemática.
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A “língua matemática” da natureza é, para Descartes, a álgebra mais que a geometria, e o “Discurso do Método” é o “tambor” que anuncia a marcha da ciência moderna.
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A palavra “método” em Platão, que significa “circular em torno” da coisa importante, é diferente do método cartesiano, que “avança por ordem” dos objetos mais simples aos mais compostos, substituindo a “estação pensante” do entendimento pela marcha para a frente.
O método cartesiano, o ego cogito e a fundação da ciência moderna-
O “inconcussum” da ciência, para Descartes, é o “ego cogito”, cuja solidez é intrínseca, mas que tem uma dupla solidez: a de uma “coisa” metodicamente primeira (a “res cogitans”) e a da própria “método”.
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O método é a própria “pensamento em si mesmo convertida”, e a reflexão não é acidental, mas a relação que a pensamento mantém com o objeto, de modo que a “mente” compreende as coisas “ex mente ad seipsam conversa”.
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A “força impulsiva e propulsiva” da reflexividade do “ego cogito” funda uma marcha em frente que nada deve a nada exterior, e o método moderno é um “initium perendi”, uma iniciativa de continuação.
O primado da método sobre a ciência e sua interpretação nietzschiana-
O reverso do “golpe de partida” grego é o “revestimento de conceitos” que fez perder o sentido do “mundo da vida”, gerando um “mal-estar” na cultura, que Husserl e Merleau-Ponty buscam superar por meio de uma “des-helenização” moderada.
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A questão é se o “golpe de partida” grego foi um salto do mundo da vida para o mundo da ciência, ou se foi o aparecimento de um mundo da ciência dentro de um mundo que nunca foi o “mundo da vida”, e a tentativa grega de dizer o aparecimento das coisas a partir do foco mesmo desse aparecimento é enigmática.
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O momento mais decisivo desse advento é quando a filosofia liberta a física por meio de um “projeto matemático da natureza”, e Galiléu, como filósofo, dá “brida solta” a esse projeto, que Descartes então recolhe ao “colóquio incessante” da pensamento consigo mesma.
A coincidência entre ciência e potência e a “expurgação do vocábulo magia”-
A fundação filosófica das ciências, que remonta a Descartes, esbarra em um enovelamento estranho: o conhecimento parece fazer um só com a potência, algo que os gregos não colocavam no centro do conhecer, e a ciência moderna é marcada pelo desejo de potência, como no aforismo de Bacon: “scientia et potentia humana in unum coincidunt”.
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A “expurgação do vocábulo magia”, proposta por Bacon, e o desejo de fazer do homem “senhor e possuidor da natureza”, aproximam a ciência de um “clima de magia”, e Descartes, embora exclua as “imposturas de um mágico”, não renuncia à ambição de potência.
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O projeto matemático da natureza, de Galileu, é uma “hermenêutica nova” que visa “salvar os fenômenos”, mas a pergunta sobre a “possibilidade de um conhecimento imaculado” é levantada, pois o “açougue secreto” da especulação é o desejo de se tornar “senhor e possuidor da natureza”.
A “vontade de potência” como última palavra da filosofia moderna-
O saber grego se dispensou do álibi de “diminuir o trabalho dos homens”, mas desde Aristóteles, a figura do “orektón” (desejado) aparece como simétrica ao “nóema” (pensado), preparando o terreno para a interpretação nietzschiana.
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A “vontade de potência”, cujo “ponto de vista” é o “valor”, é a última palavra da filosofia moderna, que efetua a inversão completa do platonismo, e a “vontade de potência” e o “eterno retorno do mesmo” andam juntos como o “ritmo” não dialético do devir.
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A filosofia de Nietzsche não é a última palavra do pensamento, mas é a última palavra da filosofia, e ele é o “reunidor extremo do cartesianismo”, que liberta possibilidades longamente incubadas, e a tarefa da pensamento seria ver em Descartes algo da “formidável roda motriz” que Nietzsche viu “em movimento por trás de Sócrates”.
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O “ritmo” do devir nietzschiano é a correlação de dois momentos: a fixação e o crescimento para além, e a ciência e a arte são compreendidas em sua unidade como esse ritmo, sendo a “vontade de potência” a essência mais íntima da vida.
O “projeto matemático da natureza” e a “pré-dominação” da natureza-
O projeto matemático da natureza, que liberou a física, prefigura a “vitória da método científica sobre a ciência”, pois representa a natureza como uma relação funcional de quantidades, resolvendo problemas de antemão, e o progresso da ciência é visto como uma “escalada de platô em platô”.
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A relação entre a matematização da natureza e sua dominação técnica não é apenas de princípio a consequência, mas de “pré-dominação”, pois a pensamento filosófico que pensa a coisa “perceptivamente” já a tem “sub dominio”, ao “intimá-la” a se manifestar como um complexo de relações calculáveis.
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A “altivez” do tom cartesiano, que “intima” a coisa a não ser senão o que é sob o olhar do “ego cogito”, é estranha à pensamento grega, que se colocava em “escuta segundo a physis” e em “simpatia” com a coisa, em vez de se escutar a si mesmo num nível mais elevado.
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O advento das ciências é uno com a “autoridade imperial” do olhar metódico do “ego cogito”, e o homem dos Tempos Modernos se eleva à condição de “sujeito”, correlato do objeto, e a ciência é a “pré-dominação” da natureza, onde o “eu penso” já a domina como “senhor e possuidor”.
A nova situação do sujeito na física quântica e a pergunta pela técnica-
Na física moderna, o sujeito não está mais “diante da natureza”, mas “no meio do debate entre natureza e homem”, e a técnica integra a intervenção humana no conhecimento, gerando incertezas, mas a “fixação matemática das relações de incerteza” permite novas precisões.
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Em um colóquio sobre “As artes na idade da técnica”, Heisenberg apresenta a situação da física moderna, e Heidegger, em seguida, pergunta “a partir de onde” se produziu a mutação do saber grego da “physis” em física matematizada, título de sua conferência “A questão da técnica”.
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Heidegger pensa a técnica não como consequência ou condição das ciências, nem como um “evento biológico”, mas busca pensar a própria ciência como uma decorrência do que ele nomeia a “essência” da técnica, que não é uma ideia geral, mas um desdobramento rico em metamorfoses a partir de um primeiro “golpe de partida”.
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A “téchne” grega, da qual deriva nossa palavra técnica, não é um conceito técnico, mas epistemológico, sendo a própria “epistémē”, e o essencial na “téchne” é a “chegada ao dia” da própria coisa, não a fabricação ou o manejo de ferramentas.
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A técnica moderna, em sua essência, remonta à “téchne” grega, e é a “hermenêutica moderna do ente” pela qual ele aparece como “cientificamente dominável” pelo homem, condição estranha à pensamento grego, que se tornou o próprio ser que se abre na clareira.
A distinção entre obra e produto e a “finitude” da filosofia diante da técnica-
O saber grego era indiferente à práxis no sentido de mecanização e matematização, e a “poiésis” grega era uma abertura à “physis” distinta do controle matemático, que transforma a relação com o mundo, como na diferença entre um cofre que nasce da “presença à madeira” e a interpretação científica dos materiais.
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O princípio cartesiano de que “a natureza age em tudo matematicamente” é mais “técnico” no sentido platônico do que a própria marcenaria, pois exalta um saber moderno que apela ao funcionamento das máquinas, cujos “produtos” substituíram as “obras”, e a distinção entre “obra” e “produto” marca a fronteira entre dois mundos.
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A técnica, oriunda do mundo grego da filosofia, é hoje a verdadeira filosofia do mundo, e a filosofia, recuperada e ultrapassada pelas ciências, não tem mais nada a dizer, e o advento do mundo da técnica é o fim da filosofia, que as ciências substituem.
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A filosofia estaria no fim de sua corrida, e a hora seria do “passo que se liberta da filosofia” para um pensamento mais essencialmente memorial, que não é fixação no passado, mas meditação do passado para compreender o presente e abrir-se ao futuro, como em Nietzsche: a palavra do passado é sempre palavra de oráculo, e só se pode ouvi-la como “construtores do futuro” e “conhecedores do presente”.
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