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Acontecimento

BARBARAS, Renaud. Métaphysique du sentiment. Paris: Editions du Cerf, 2016

III. O arqui-evento

  • Todas essas considerações convergem para a cisão no seio do arquimovimento do mundo, procedente de uma falha ou limitação de sua sobrepotência, da qual nasce o sujeito como resíduo, esse movimento impotente pelo qual se definiu o desejo
    • A limitação, mesmo afetando a sobrepotência em seu próprio cerne, não pode proceder dela, pois o próprio da essência é não comportar a razão de sua limitação, sendo o próprio da potência afirmar-se e desdobrar-se, distinguindo-se assim radicalmente da onipotência de um Deus que poderia querer sua própria limitação
    • Também é excluído atribuir essa falha à ação de outro ente, o sujeito, pois é precisamente de sua existência que se trata de dar conta, sendo essa falha um fato que concerne à potência mas dela não procede, advindo nela mas não por ela, devendo por isso ser definida como arqui-evento, alterando um arquimovimento
  • Essa conclusão impõe-se pela essência do que está em questão: a limitação é algo que sobrevém ao movimento, infletindo seu curso como um movimento no movimento, mas, sendo o arquimovimento todo o movimento, o que vem alterá-lo não pode ser movimento, só podendo ser evento
    • Evocaria o clínamen que inflete infimamente a queda dos átomos no vazio sem proceder de seu movimento, cujos efeitos são tão poderosos quanto ele mesmo é quase nada, permitindo o encontro dos átomos e dando razão da riqueza qualitativa do mundo, sendo o arqui-evento como um clínamen metafísico
  • A limitação da sobrepotência da qual nasce o sujeito possui todos os traços do evento, sendo puro surgimento e, portanto, sem causa nem razão, algo que se pode apenas dizer que teve lugar, o que também é verdadeiro, de certo modo, do evento histórico
    • François Furet, citado por J.-L. Marion, observa que quanto mais um evento é carregado de consequências, menos é possível pensá-lo a partir de suas causas, o que equivale a reconhecer que o que sobrevém só pode transformar profundamente a realidade que afeta se não encontrar sua possibilidade nessa mesma realidade
    • A única maneira de pensar uma novidade que não faça alternativa com a precessão é a teoria bergsoniana do ato livre, cuja novidade não se opõe à maturação num processo de duração mas antes a exige, sendo um ato tanto mais novo quanto mais foi amadurecido
  • Distinguem-se ao menos três esquemas possíveis quanto à novidade: o esquema leibniziano, para o qual todo evento remete a uma possibilidade já contida no entendimento divino, de modo que a novidade é apenas do ponto de vista finito de quem ignora a série dos predicados da substância
    • O esquema bergsoniano exclui a precessão numa possibilidade, sendo a realidade que funda e mede a possibilidade e não o inverso, devendo substituir-se ao esquema possível/real a relação entre um virtual e suas atualizações, sendo a duração como tal criadora e produtora de novidade
    • O verdadeiro evento, distinto da realização do possível ou da atualização do virtual, não vem de lugar nenhum, podendo-se afirmar que um verdadeiro evento, e portanto o arqui-evento como transtorno do próprio mundo, só pode ser absolutamente sem causa, sendo um desmentido infligido ao princípio de razão suficiente
    • A cisão de que procede o sujeito é sem causa nem razão, devendo o próprio sujeito, até então considerado lugar e fonte de toda razão, ser compreendido como o sem-razão por excelência
  • Enquanto puro surgimento estranho à natureza do que pode ser, o evento não comporta a menor positividade, não sendo nada, embora não se confunda com o puro nada já que precisamente tem lugar, não sendo o algo que advém mas sua chegada como tal
    • Distingue-se uma primeira negatividade, a do próprio movimento, negação ativa da identidade que não exclui uma profunda positividade, remetendo à produtividade de um movimento, à fecundidade de uma potência, havendo mais positividade no processo mundano do que em qualquer substância
    • O evento, devir desse devir, não pode significar senão o esgotamento ou enfraquecimento dessa potência, sendo o verdadeiro negativo que se opõe ao próprio devir em que reside o verdadeiro positivo, sendo sua realidade a de um enfraquecimento da potência mundificante, uma falha em sua plenitude
    • O evento não é essa negação em ato que é o movimento, mas negação do próprio movimento, uma mobilidade de segunda potência que consiste apenas numa fraqueza ou limitação da mobilidade mesma, sem contudo ser sinônimo de nada, pois faz, tem efeitos, sendo devir do devir ou advir no devir
  • Ainda que nada de positivo seja, com o evento algo se passa, sendo sua realidade própria apenas a de seus efeitos, transformando de alto a baixo aquilo em que advém, insaisissável não por impotência nossa mas por sua própria natureza
    • Só se reconhece o evento através das transformações que produz, sempre depois do fato, mesmo no plano existencial ou histórico, sendo certos fatos vividos como eventos apenas a consequência visível do que os tornou possível subterraneamente
    • O verdadeiro evento e, a fortiori, o arqui-evento não possuem natureza que permita identificá-los, permanecendo sem rosto por se esgotarem em seus efeitos, aproximando-se antes do traumatismo do que de um evento empírico datável
    • Nossos eventos fundadores só podem ser apreendidos através da realidade psíquica do sujeito, não estando o psicanalista à procura de um evento empírico explicativo mas de uma eventualidade inacessível por essência, importando não o que teve lugar mas seu retumbar para o sujeito
  • A modalidade de transformação própria do evento é tributária de sua negatividade, sendo erro falar de seus efeitos, pois em rigor o evento nada produz por nada ser, podendo-se apenas dizer que teve lugar
    • Se o evento fosse algo determinado, capaz de funcionar como causa, a transformação que produz seria circunscrita e identificável, o que confundiria seu efeito com os efeitos próprios da potência mundificante, o surgimento de uma diferença como determinação
    • Sendo o evento nada, não produz nada de positivo, sendo a diferença que faz advir uma diferença sem determinação, afetando por isso a totalidade da realidade, ao contrário do efeito circunscrito de uma causa
    • A transformação evenemencial é tal que não pode ser caracterizada, mudando tudo sem que se possa dizer o que mudou, o que significa que essa mudança não afeta a essência daquilo em que ocorre, correspondendo exatamente ao acesso à fenomenalidade, ao aparecer
    • O aparecer afeta profundamente a totalidade da realidade sem afetar de modo algum sua essência, sendo essa a única maneira de o ser mudar radicalmente sem deixar de ser o que é, sendo o aparecer algo que sobrevém ao ser no sentido rigoroso de um evento
  • A análise concerne por ora ao que comanda esse acesso ao aparecer propriamente dito, a limitação-cisão no seio da sobrepotência do mundo, que dá lugar a esse movimento singular que nos distingue como sujeitos
    • Essa falha interna da sobrepotência não pode proceder da própria potência, só podendo relevar de um arqui-evento afetando o arquimovimento do mundo, remetendo a eventualidade do aparecer ao evento originário de uma cisão no seio da potência mundificante
    • Mesmo se o aparecer secundário afeta o próprio ser, algo que lhe sobrevém, não pode ser algo que sobrevém por ele, permitindo o recurso ao evento e à cisão que produz dar conta da diferença sem a qual não há correlação, forma radical e mínima da necessidade de um destinatário
    • O sentido da dualidade da consciência e do mundo esgota-se na cisão arqui-evenemencial, reconhecendo que essa cisão não remete a duas substâncias previamente dadas nem possui ela mesma natureza, sendo a diferença no cerne da relação evanescente sem comprometer a comunidade ontológica do sujeito e do mundo
    • O verdadeiro evento não é tanto o surgimento do aparecer secundário quanto o do sujeito, sendo necessário reportar a vinda ao parecer a um evento mais profundo, o da cisão que afeta o arquimovimento e do qual procede o sujeito
    • A ordem é a seguinte: arqui-evento da limitação e da cisão no cerne do arquimovimento, surgimento do sujeito, advento da fenomenalidade, não sendo o sujeito o artesão da fenomenalidade, já que o evento a que deve sua existência é antes algo que sobrevém ao mundo
  • A colocação em evidência do arqui-evento suscita um problema, pois este é único, o que se justifica por várias vias convergentes: sendo total a transformação que induz, exclui a repetição, e, não sendo nada, não comporta a identidade mínima que a repetição exigiria
    • Se o evento pudesse repetir-se, bascularia para o lado da legalidade ou da essência, o que contraria o sentido elementar do evento, que é o que não tem lugar frequentemente, tendo o que se repete uma razão de ser, ao passo que o evento é sem causa nem razão
  • Von Weizsäcker, citado por Maldiney, observa que só se crê plenamente naquilo que se viu apenas uma vez, enfraquecendo toda repetição a crença e despertando a suspeita de uma legalidade e não de uma realidade
    • Não há repetição sem lei, seja de essência ou funcional, sendo tal legalidade uma realidade menor por se deixar apreender sob forma de lei, sendo verdadeiramente real apenas o que teve lugar uma só vez, o que só pudemos acolher em pura passividade, a transpassibilidade de Maldiney
    • A negatividade do evento, por não ser nada determinado, é sinônimo de plena realidade, mas seu excesso de realidade mede-se por seu déficit de essência, não sendo mais equivalentes realidade e determinação
  • Dessa unicidade do evento procede o problema anunciado: como conciliar a unicidade constitutiva do arqui-evento com a pluralidade e mesmo a infinidade dos sujeitos vivos, que são efeitos ou resíduos da limitação e da cisão que afeta o arquimovimento do mundo
    • O problema só se coloca se o arqui-evento for compreendido como evento empírico, advindo num ponto determinado do curso mundano, o que trai a natureza do arquimovimento, que ainda não é temporal, de modo que o que o afeta pontualmente e uma única vez o afeta totalmente
    • Sendo o processo mundificante o de uma potência que só se realiza em suas obras e delas se nutre, é impossível discernir um antes e um depois nesse processo, sendo o mundo copresente a cada uma de suas obras, sempre já passado e nunca passado
    • A temporalidade é estranha a esse processo, que não é, contudo, intemporal, mas antes eterno no sentido de uma eternidade de vida que renasce sem cessar de suas produções, sendo essa eternidade uma pré-temporalidade que só se tornará temporal com o surgimento de um sujeito
  • É esse arquimovimento, no qual todo presente é copresente à totalidade, que o arqui-evento vem afetar, de modo que sua unicidade deixa de fazer alternativa com a multiplicidade, sendo, ao ter lugar uma vez, copresente a todas as modalidades do processo mundificante
    • O arqui-evento é múltiplo por ser único, tão múltiplo quanto uno, sendo esse o sentido mais profundo do evento, sua indiferença à distinção do um e do múltiplo, uma unicidade que só se realiza como modalização infinita
  • Não há então dificuldade em afirmar que o arqui-evento, único em sua eventualidade, ao afetar sem cessar o arquimovimento do mundo, dá lugar sem cessar a sujeitos vivos, indefinidamente, sendo o número de entes tão indefinido quanto essa potência é infinita
    • Alterada de uma vez por todas por esse evento, a sobrepotência não cessa de fraquejar em seu seio, dando origem a vivos que o são não pela presença da arqui-vida neles mas por seu déficit, sendo o sujeito vivo privado da vida, dela separado pelo arqui-evento
    • A arqui-potência tem assim dois destinos correspondentes aos dois modos de individuação distinguidos: produzindo-se ao diferenciar-se em entes determinados e dependentes, não-vivos, e enfraquecendo-se ao dar origem a entes separados, autônomos mas indeterminados
    • É porque há estes últimos que os entes não-vivos podem aparecer, sendo essa diferença, remetendo à cisão evenemencial primeira, que dá lugar à fenomenalidade propriamente dita, coincidindo com a diferença entre o ser e sua fenomenalização
    • A sobrepotência não cessa de superar a fraqueza que a afeta, absorvendo continuamente os sujeitos vivos que dela se separaram, estando todo sujeito vivo destinado a acabar, a dissolver-se na arqui-vida, havendo tensão constitutiva entre arquimovimento e arqui-evento no cerne da correlação
  • É possível reunir tudo isso retornando à questão da finitude: o arqui-evento, produzindo no seio do processo do mundo uma cisão da qual nascem os sujeitos vivos, não é senão a própria finitude, o evento da finitude, não sendo mais esta um predicado do sujeito mas o sujeito uma consequência da finitude
    • A finitude tradicionalmente atribuída ao sujeito remete a essa finitização singular que afeta o arquimovimento do mundo sob forma de limitação e cisão produzidas pelo arqui-evento, devendo a condição que dela procede ser compreendida como mortalidade
    • A mortalidade significa a um só tempo a separação como modo de individuação e a inelutável dissolução do sujeito na arqui-vida, não devendo ser pensada a partir da morte, mas a morte a partir da mortalidade, sinônimo de separação individuante
  • A finitude antropológica remete ela mesma a um evento que afeta o ser, não havendo portanto finitude propriamente antropológica, situando-se as duas finitudes distinguidas na mesma linha por remeterem a dois modos de finitização do próprio ser
    • Há uma finitização constitutiva do próprio mundo, confundindo-se com o processo de diferenciação e limitação do qual procedem os entes finitos não-vivos, finitude insuperável por ser constitutiva, inerente à fenomenalização enquanto implica retirada e reserva
    • Há, por outro lado, uma finitização que não é obra do mundo mas do arqui-evento, tomando a forma de uma limitação por enfraquecimento da sobrepotência e realizando-se como separação, dessa finitude procedendo o sujeito em sua mortalidade, sendo ela, ao contrário da primeira, superável e efetivamente superada na morte
  • Reconhece-se assim, conforme a tradição metafísica, uma finitude que não é a do ser, o que equivale a afirmar que a fenomenalidade secundária comporta uma parte de contingência, sendo destino antes que obra do ser, embora essa finitude não se esgote no fato antropológico
    • Remete antes a um arqui-evento que, como tal, está à medida do ser e contém o sentido verdadeiro da contingência, não sendo a finitude que remete ao fato do sujeito, mas o fato do sujeito que remete à arqui-contingência que caracteriza o evento da finitude
  • As duas finitudes situam-se do lado do ser, sendo uma constitutiva e a outra apenas afetando-o: da primeira, ontológica, procedem os entes e seu aparecer primário; da segunda, evenemencial, procedem os sujeitos que conduzirão os entes ao parecer
    • Esse parecer é absolutamente contingente, contingência que não é tanto a do sujeito quanto a do arqui-evento de que procede, significando que a subjetivação, embora advenha inelutavelmente ao ser, não está nele prefigurada, sendo seu aparecer destino e não telos
    • Essa distinção é a única maneira de escapar definitivamente ao subjetivismo afastando também a teleologia, não sendo a subjetivação do ser de modo algum prefigurada nele, mas advindo-lhe inelutavelmente por repousar num arqui-evento que afeta o próprio processo mundificante
    • Ao nível do aparecer primário trata-se de uma necessidade de essência, sendo o aparecer constitutivo do ser; ao nível do aparecer secundário trata-se de uma necessidade de fato, remetendo à onipotência ou onipresença de um arqui-evento
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