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Leibnizianismo

BARBARAS, Renaud. De l’être du phénomène. Grenoble: Jérôme Millon, 1991

O leibnizianismo de Merleau-Ponty

  • A ontologia de Merleau-Ponty se enraíza na necessidade de assumir a diplopia ontológica da filosofia ocidental inaugurada por Descartes, buscando o ponto de vista a partir do qual a tensão entre a razão científica e o reconhecimento de uma existência irredutível ao entendimento deixa de se opor, o que conduz à atenção privilegiada às filosofias pós-cartesianas e, mais particularmente, à convergência reconhecida entre a filosofia de Leibniz e a visão ontológica merleau-pontiana
    • a tensão insuperável entre uma realidade submetida às exigências da razão científica e uma existência que não se pensa como existindo
    • o interesse pelos primeiros textos de Merleau-Ponty por Malebranche, superado pela preeminência do nome de Leibniz nas notas de trabalho de O visível e o invisível, que previam um capítulo confrontando Descartes e Leibniz
  • Para Leibniz, a unidade própria à substancialidade impede que a substância seja pensada como realidade material ou como unidade abstrata de tipo matemático, devendo antes ser definida rigorosamente como expressão da diversidade na unidade, ou seja, como percepção entendida em sentido novo, o que leva a substância a ser compreendida como Agir mais do que como Ser, cada substância aparecendo como modalidade de expressão e ponto de vista sobre um mesmo universo, em relação de duplo envolvimento com o mundo
    • a recusa leibniziana tanto do materialismo quanto da Ideia platônica, cuja pura identidade dissolveria a diversidade do real
    • a caracterização da substância além da oposição entre interioridade e exterioridade, o que leva a falar de espiritualismo mais do que de intelectualismo, a substância concebida sobre o modelo da alma
    • a substância pensada sobre o modelo da força ou da lei de uma série matemática, cada uma constituindo um ponto de vista definido por um certo grau de obscuridade e clareza
    • o mundo situado nem em interioridade nem em exterioridade em relação à substância, a obscuridade sendo apenas um grau inferior da clareza, e as substâncias pertencendo ao mundo pela obscuridade da expressão tanto quanto o mundo pertence às substâncias pela clareza
  • A proximidade entre o universo leibniziano e a ontologia da carne é inquestionável, a filosofia de Leibniz representando a tentativa mais acabada de encontrar uma via entre o ponto de vista da essência e o reconhecimento do finito, ainda que a solução leibniziana permaneça uma solução de compromisso, na qual o conceito de expressão termina subordinado ao plano da essência e polarizado em direção a Deus
    • a citação segundo a qual, no plano teológico, a filosofia de Leibniz resume o esforço do pensamento cristão para encontrar um caminho entre a concepção necessitária do Ser e o surgimento imotivado do Ser bruto
    • a citação segundo a qual a harmonia preestabelecida mantém sempre o em-si e o liga ao que se experimenta por uma relação de substância a substância fundada em Deus, quando se trataria antes de rejeitar inteiramente a ideia do Em-si
    • a distinção entre Deus, que não exprime o mundo mas o concebe, e cada mônada, cuja obscuridade expressiva é antes degradação do que condição da clareza
    • a relação entre substâncias fundada não nelas mesmas mas num geométrico, noção completa no entendimento divino do qual cada substância é apenas uma vista imperfeita
  • Impõe-se falar de um leibnizianismo de Merleau-Ponty, não apenas porque as duas filosofias procedem de uma mesma atitude diante da ontologia cartesiana, mas porque Merleau-Ponty se reconhece explicitamente na elaboração leibniziana do problema ontológico, retomando certas descrições leibnizianas conservadas fora de sua elaboração substancialista e ontoteológica, a expressão do universo em nós sendo aquilo mesmo que se constata na percepção
    • a longa citação de Merleau-Ponty segundo a qual a relação de In der Welt Sein ocupa o lugar que tem em Leibniz a relação de expressão recíproca das perspectivas tomadas sobre o mundo e de Deus como autor único dessas perspectivas, certas descrições leibnizianas devendo ser conservadas e separadas da elaboração substancialista que Leibniz lhes impõe, e a fórmula segundo a qual nossa alma não tem janelas significando In der Welt Sein
    • a percepção como abertura de um nível, de uma dimensão do mundo, cada experiência sendo uma modalidade de expressão do mundo, e o mundo não sendo senão sua própria expressão, como eixos e raios que preservam sua profundidade
    • a recusa de reabsorver o mundo na coisa e a expressão no exprimido, cada coisa não sendo senão um modo, uma dimensão da expressão do mundo, a expressão sendo mais profunda que o exprimente e o exprimido, que a consciência e o mundo
    • a expressão como simultaneamente clareza e obscuridade, a coisa não conquistando sua individualidade senão permanecendo copresente ao mundo
    • a citação leibniziana segundo a qual cada substância é um conjunto organizado e fechado que é, no entanto, representativo de todo o resto, possuindo seus símbolos e equivalentes para tudo o que não é ele
    • a compreensão do Ser como entre-expressão, o mundo se constituindo em torno de pontos de passagem e eixos de equivalência sobre os quais as coisas comunicam e acedem à sua identidade e à sua diferença
    • o quiasma definido como a verdade da harmonia preestabelecida, mais exato do que ela porque liga como avesso e direito conjuntos já unificados em vias de diferenciação
    • o mundo não sendo nem um nem múltiplo, mas já acordo e interioridade discordante de toda coisa a toda coisa, à imagem do universo leibniziano
    • a citação segundo a qual há dimensionalidade de todo fato e facticidade de toda dimensão, o que estende a compreensão da intersubjetividade como entre-expressão e ressitua a consciência propriamente dita como um momento da expressão e não como ruptura com o mundo
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