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Intersubjetividade
BARBARAS, Renaud. De l’être du phénomène. Grenoble: Jérôme Millon, 1991
A armação da intersubjetividade
O quiasma dos outros e do mundo
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A experiência explicitada no nível do visível é qualificada como solipsista não porque a carne aí se experimente isolada, mas porque a identidade do sentir e sua solidão como separação em relação aos outros permanecem ignoradas, faltando uma relação com uma alteridade verdadeira, de modo que a explicitação do sentir nessa camada solipsista se revela uma abstração, já que o sensível nunca foi o outro da objetividade e contém em si tudo, inclusive os atos que o tematizam
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a presença a si como ausência de si no nível do sentir, onde senciente e mundo constituem ainda uma esfera fechada sem distância possível
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a dimensão da objetividade e da transcendência objetiva do mundo, por sua vez ultrapassada pela constituição de um universo imutável, a objetividade lógica ou racional
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a passagem de um mundo solipsista a um universo objetivo realizada pela mediação da experiência do outro, cuja aparição rompe a clausura anônima da carne e de seu mundo
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a experiência do outro como apresentação de um inapresentável, constituindo um primeiro passo do sensível rumo ao invisível e uma articulação entre o plano do visível e o do invisível
Ao se afastar de Husserl e de Sartre, pelas mesmas razões em ambos os casos, desenha-se uma posição rigorosa do problema do outro, que não deve ser buscado como alter ego mas aquém desse nível, no plano da corporeidade, sem que a experiência do outro se identifique pura e simplesmente com a revelação dessa corporeidade-
a exigência de que a doação do outro não proceda de um ego fechado sobre si mesmo, e de que a passividade correspondente seja ao mesmo tempo atividade, desapropriação sendo também apropriação
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a encarnação não como passagem de uma consciência transparente a seu outro, mas como a própria modalidade segundo a qual ela pode relacionar-se consigo mesma
A noção de carne basta para satisfazer as condições do problema, bastando desenvolver suas implicações, instalando-se no cerne da carne para retomá-la como lugar da articulação entre o eu e o outro, o eu carnal não sendo ele mesmo senão ao se fazer outro-
a recusa de fazer repousar a objetividade do mundo sobre a experiência do outro, esta devendo antes aparecer como um momento da abertura carnal ao mundo
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a ausência de sentido, para Merleau-Ponty, da questão de uma ordem de prioridade entre a constituição do outro e a da objetividade, o outro sendo, como eu, uma articulação do mundo
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a citação segundo a qual tudo repousa sobre a riqueza insuperável, sobre a maravilhosa multiplicação do sensível
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a recusa tanto de uma camada objetiva autônoma e de uma transcendência primeira quanto de uma multiplicidade de consciências, havendo apenas uma única visão, uma única abertura que se cristaliza na espessura dos isto mundanos
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a citação segundo a qual o outro e meu corpo nascem juntos do êxtase originário, impondo falar de um quiasma entre o mundo e os outros
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a citação segundo a qual as coisas percebidas pelo corpo só seriam verdadeiramente o ser se se soubesse que são vistas por outros, o em si só aparecendo depois da constituição do outro
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a citação sobre a distância do outro como estranha proximidade, o sensível podendo assombrar mais de um corpo, e os olhares não sendo atos de consciência mas abertura da carne logo preenchida pela carne universal do mundo
A reversibilidade do sentir como fundamento da intercorporeidade
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A corporeidade carnal se caracteriza por sua aptidão à reversibilidade, a mão esquerda tocada como objeto sendo ao mesmo tempo atingida como toque, sensação localizada, o que revela um corpo que não passa à condição de puro objeto mas esboça uma consciência, o sentir devendo ser compreendido como advento de uma Sensibilidade sem sujeito assinalável
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a relação a si próprio do sentir que só se realiza como diferença a si, sob a forma do afastamento entre a mão tocante e a mão tocada, nenhuma delas sendo propriamente senciente ou sentida
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a generalização dessa relação a todos os outros sentidos, o sentido da carne consistindo numa unidade que só se realiza como possibilidade de passagem entre sentires singulares
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a impossibilidade de circunscrever a unidade carnal, que difere de si mesma e é contaminada por suas próprias diferenças, cada sensação se ultrapassando rumo às vivências de outros corpos
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a ausência de estratos escalonados e de camada última, nenhuma unidade podendo se fechar sobre si mesma, nenhum corpo permanecendo alheio a outros corpos
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a citação segundo a qual o Ser é essa estranha usurpação recíproca pela qual meu visível, ainda que não superponível ao de outrem, abre-se sobre ele, ambos abrindo-se sobre o mesmo mundo sensível
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a subjetividade transcendental retomada em sua profundidade carnal como intersubjetividade transcendental
A relação estabelecida entre as duas mãos se generaliza, como no caso do aperto de mãos reversível, o corpo sendo, desde o toque solipsista, outro a si mesmo, o sentir presente como sua própria ausência, de modo que a ausência do sentir num outro corpo visível deixa de significar a negação de sua presença-
a citação segundo a qual dizer que o corpo é vidente não é dizer outra coisa senão que ele é visível, havendo na experiência que se tem do próprio corpo algo que funda e anuncia a visão que outrem dele toma
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a citação segundo a qual ver é não ver, ver outrem sendo essencialmente ver meu corpo como objeto, a experiência de meu corpo e a de outrem sendo os dois lados de um mesmo Ser
A verdade da filosofia de Sartre reside em reconhecer que outrem permanece irremediavelmente ausente, sendo apenas o avesso difuso de sua visibilidade, mas essa análise confunde a aparição de outrem com a objetivação do corpo, fazendo passar a visibilidade para o lado do objeto e restaurando diante dela uma pura subjetividade-
a invisibilidade de outrem mal-compreendida e confundida com a existência de uma consciência positiva, cavando entre visão e visibilidade o abismo que separa sujeito e objeto
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a demonstração de que o sujeito carnal só é verdadeiramente visível se essa visibilidade não é a negação de sua visão mas o único modo de ser que lhe convém, o vidente se fazendo visível a fim de ser vidente
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a citação segundo a qual minha carne não é fundamentalmente nem coisa vista somente, nem vidente somente
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a afirmação, contra Sartre, de que a visibilidade de minha carne não é o avesso da visão do outro mas o único modo de ser convindo à minha, podendo assim fundar uma aparição do outro conforme à sua transcendência
A armação da intersubjetividade
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A análise permanece abstrata enquanto parte de polos egológicos já constituídos, ao passo que dizer que o vidente só se constitui como tal ao se fazer visível equivale a afirmar que não há propriamente um vidente circunscrito e acabado, nem eu e outrem como polos positivos, o sujeito do sentir permanecendo anônimo e situado aquém da oposição entre outrem e si mesmo
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a possibilidade de a intersubjetividade entrar na definição dos eus carnais, caracterizados pela unidade de um já e de um ainda não
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a precedência da relação sobre os termos entre os quais ela se estabelece, cada consciência só conquistando sua diferença no seio de sua identidade com todas as outras
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a citação segundo a qual não há nem eu nem outrem como positivos, mas dois antros, duas aberturas pertencentes à mesma cena do Ser, incorporando-se um ao outro por projeção-introjeção
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a noção de Ineinander pela qual cada termo só está no outro, possuído por ele, se não se dissolve nele e por conseguinte o possui a seu turno
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a oscilação de Merleau-Ponty, na Fenomenologia da percepção, entre a insularidade do ego husserliano e a indiferenciação scheleriana, faltando ainda a charneira da intersubjetividade
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a citação segundo a qual a superfície de separação entre eu e outrem é também o lugar de nossa união, a única Erfüllung de sua vida e da minha, charneira invisível sobre a qual minha vida e a dos outros giram, a armação da intersubjetividade
Alcança-se aqui o lugar geométrico da própria filosofia de Merleau-Ponty, o Ineinander constituindo uma realidade última e irredutível, dimensão fundamental do mundo, não havendo nem as consciências nem o mundo isoladamente mas a intersubjetividade, charneira em torno da qual o mundo conquista sua unidade-
a citação segundo a qual o mundo faz sua unidade através de incompossibilidades tais como a de meu mundo e a do mundo de outrem
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a intersubjetividade como dimensão última para o mundo, ponto além do qual o mundo refluiria para a pura representação
O mundo é retomado a partir das implicações da relação a outrem, esboçando uma unidade dispersa entre os vividos e as consciências, de modo que nem uma subjetividade insular nem uma subjetividade transcendental única bastariam para dar conta de sua unidade significante-
a situação do mundo entre os outros e eu, presente a todos mas possuído por ninguém, promessa de unidade e ao mesmo tempo lugar da discordância e do conflito
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a relação a outrem situada além da alternativa fixa entre harmonia e conflito, distinta tanto da filosofia reflexiva quanto da filosofia sartriana
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a conclusão de que essa consciência do fato da intersubjetividade conduz a conceber o Ser como Historicidade, a historicidade como Ser
A relação entre a experiência de outrem e a transcendência objetiva do mundo dispensa qualquer relação de fundação em exterioridade, cada experiência e cada subjetividade devendo ser situadas na dimensão superior da intersubjetividade, que não é senão a da teleologia-
a objetividade não designando um em si repousando em si mesmo nem uma construção transcendental, mas uma dimensão da visibilidade, a própria Visibilidade como dimensão
A Visibilidade em torno da qual o mundo se ordena permanece dimensão, confundindo-se com a doação de um mundo objetivo em vez de se recolher na transcendência de um sentido, de modo que a experiência intersubjetiva cristaliza a Dimensão última da visibilidade-
a citação segundo a qual as outras visões acusam os limites de nossa visão de fato e sublinham a ilusão solipsista de crer que toda superação é superação por si mesmo
O fenômeno de outrem
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Ainda que a possibilidade da experiência de outrem se enraíze na existência carnal do mundo, outrem não é uma coisa do mundo, apresentando-se como apresentação originária do inapresentável através de seu próprio corpo, inscrito no mundo sem ser situável no espaço objetivo
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a citação segundo a qual onde está outrem nesse corpo que vejo, ele é imanente a esse corpo e, no entanto, mais que a soma dos signos que ele veicula
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o comportamento de outrem manifestando de imediato uma unidade e uma orientação que impedem reduzi-lo a movimentos mecânicos, seu corpo se apresentando como cristalização de um viver
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a impossibilidade de situar os movimentos de outrem sobre um plano objetivo, seu repouso sendo estação, movimento interrompido, modo de cristalização de um eu posso
A comparação com a frase se justifica pela estrutura diacrítica do fenômeno de outrem, cuja realidade nasce da incessante diferenciação de seus comportamentos, cada gesto dando dele apenas uma imagem parcial e não exaustiva embora ele se ateste inteiro em cada uma delas-
a citação segundo a qual a alma é o vazio côncavo do corpo, o corpo o inchaço da alma, aderindo a ele como a significação adere às coisas culturais de que é o avesso ou o outro lado
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alma e corpo como o anverso e o reverso da carne, o corpo sendo a espessura de que a alma precisa para se escavar
Outrem não pode ser localizado no mundo diante de mim, sua presença permanecendo difusa como a de meu próprio corpo, que não está alhures mas também não pode dizer-se aqui ou agora no sentido dos objetos-
a citação segundo a qual outrem está sempre um pouco mais longe do que o ponto para onde olho, pousado sobre o visível como um pássaro, agarrado a ele e não nele, e no entanto em quiasma com ele
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o termo em falso caracterizando outrem, que nasce desse próprio desequilíbrio, não sendo um objeto do mundo mas afastamento e articulação, tomada sobre o mundo e impacto do mundo
A aparição de outrem é sobretudo a prova de um desvio dentro de meu visível, outrem sendo, como eu, dimensionalizante, cristalização do próprio elemento da visibilidade-
a citação segundo a qual o vidente-visível não é algo psíquico nem um comportamento de visão, mas uma perspectiva, ou melhor, o próprio mundo com certa deformação coerente
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a promessa de outras visões contida na própria doação da coisa sensível, que já me devolve minha imagem
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a citação segundo a qual graças a outros olhos somos a nós mesmos plenamente visíveis, a lacuna onde se encontram nossos olhos e nossas costas sendo preenchida por visível ainda, mas do qual não somos titulares
Há plena continuidade entre a coisa e outrem, cuja distinção não pode ter uma significação ontológica última, ambos aparecendo como momentos abstratos de um tecido originário de visibilidade-
a citação segundo a qual antes de outrem as coisas são não-seres qualificados, havendo Einfühlung e relação lateral com as coisas não menos que com outrem, elas sendo tiradas de minha substância, espinhos de minha carne
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o descompasso persistente na Fenomenologia da percepção entre a percepção e a relação a outrem, superado pela noção de carne em O visível e o invisível
O princípio de uma oposição originária entre natureza e cultura se encontra ultrapassado, sua relação sendo de quiasma, o mundo natural envolvendo sempre o mundo cultural que, no entanto, o exprime e o envolve-
a citação segundo a qual tudo é cultural em nós e tudo é natural em nós, mesmo o cultural repousando sobre o polimorfismo do Ser selvagem
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outrem caracterizado como o primeiro dos objetos culturais, iniciando o que a arte e a linguagem realizarão, sem que estas sejam compreendidas como sinal de uma consciência possuindo a significação em transparência
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