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Expressão
BARBARAS, Renaud. De l’être du phénomène. Grenoble: Jérôme Millon, 1991
O problema da expressão
§ 1 Mundo natural e paisagem cultural
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La structure du comportement e a Phénoménologie de la perception caracterizam-se como obras arqueológicas, empenhadas em trazer à luz a figura do mundo percebido a contrapelo das idealizações nele sedimentadas, tal como resume o exposé de candidatura ao Collège de France sobre o enraizamento do espírito em seu corpo e seu mundo
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Essa pesquisa expõe-se, contudo, à objeção formulada já na conferência sobre o primado da percepção, segundo a qual a ordem do percebido poderia figurar mera aparência diante de um entendimento puro capaz de acesso a um saber universal, o que revela não apenas lacuna mas problema que a própria lacuna suscita
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Enquanto o problema da verdade não é abordado e a descrição do percebido não se converte em filosofia da percepção, o retorno ao percebido pode ser interpretado como etapa provisória fadada a ser superada como aparência, de modo que o movimento arqueológico só terá valor filosófico se uma teleologia, uma verdade já em obra no percebido, for evidenciada
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Merleau-Ponty jamais concebeu a percepção como camada autônoma independente da ordem da verdade, e o corpo já era compreendido, mesmo na Phénoménologie de la perception, como traço de uma existência e ponto de passagem de uma dinâmica expressiva, ainda que a fraca insistência nesse aspecto seja significativa e exija a retificação posterior
A leitura do capítulo O corpo como expressão e a palavra revela essa insuficiência, pois a análise da linguagem encerra a primeira parte consagrada ao corpo, confirmando no plano do comportamento racional a irredutibilidade do comportamento à posse intelectual de um noema-
O estudo da linguagem tem estatuto privilegiado por desdobrar o domínio da idealidade, o que faz dele prova da fecundidade filosófica de uma arqueologia do percebido, conforme a declaração inicial sobre ultrapassar a dicotomia clássica de sujeito e objeto
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A demonstração recusa as interpretações empiristas e intelectualistas da linguagem que separam o signo de sua significação, reconhecendo que a palavra possui significação gestual ou existencial da qual procede a significação constituída, de modo que a operação expressiva realiza o sentido em vez de apenas traduzi-lo
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A afirmação de que o gesto verbal desenha por si mesmo seu sentido enfrenta a objeção de que, ao contrário do gesto corporal referido a um mundo sensível dado ao espectador, a gesticulação verbal visa uma paisagem mental não dada de antemão a cada um
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A cultura fornece o que a natureza não dá, um mundo comum constituído por significações sedimentadas, mas ao traçar um paralelo entre gesto corporal e palavra, entre mundo percebido e paisagem cultural, a análise permanece submetida à oposição entre natureza e cultura sem mostrar como a idealidade se articula ao mundo percebido
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Essa orientação decorre de as análises anteriores terem extraído a potência expressiva do corpo a partir de comportamentos naturais, sobretudo motores, descritos pela psicologia da forma, de modo que o progresso em relação ao naturalismo consiste em superar o corpo objeto em favor do corpo vivo, sem pensar verdadeiramente o corpo a partir do fenômeno da expressão
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Rebaixada a uma transcendência corporal entendida implicitamente como poder de desdobrar um Umwelt, a expressão não se iguala ao fenômeno da palavra, reaparecendo sob forma deslocada a dualidade de sujeito e objeto como oposição entre mundo natural e mundo cultural
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A articulação entre os dois ordens permanece no plano da metáfora: falar de gesto ou de paisagem mental não explica como um gesto se torna falante nem como o mundo percebido pode dar nascimento a significações, restando o fenômeno da palavra impensado para além das metáforas
§ 2 A motivação do signo
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Merleau-Ponty não se detém aí, pois a descrição do gesto linguístico como rapport a um universo cultural é apenas provisória, impondo-se a questão de como se constituíram as próprias significações disponíveis, ou seja, o problema da primeira palavra
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A linguística evidencia o caráter imotivado do laço entre signo verbal e significação, o que impõe conciliar o arbitrário do signo com a dimensão gestual da palavra, dominada por uma noção de gesto herdada do estudo dos comportamentos naturais
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A resposta é de inspiração naturalista: o sentido conceitual procederia de um sentido emocional que a poesia deixa ouvir, de modo que palavras, vogais e fonemas seriam maneiras de cantar o mundo, extraindo dos objetos sua essência emocional em vez de reproduzi-los por semelhança
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Merleau-Ponty ressalva não se tratar de reduzir o signo artificial ao signo natural nem a linguagem à expressão das emoções, pois não há signo natural no homem, e aproximar linguagem e expressões emocionais não compromete sua especificidade
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Afirmar que não há signo puramente natural não explica, contudo, o comportamento eminentemente convencional que é a linguagem, pois diluir a especificidade linguística no conjunto dos signos não naturais mostra apenas que a linguagem não é impossível, sem mostrar como ela é possível
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A assimilação do natural ao mecânico permite conciliar gestual e convencional apenas aparentemente, sem explicar como certos gestos se tornam verdadeiramente significantes, de modo que a dualidade de natureza e cultura é dissolvida na noção de convenção sem ser verdadeiramente superada
A manutenção do pressuposto dualista afeta de significação ambígua a existência e a expressão, concebidas menos como potência significante do corpo do que como vida, potência vital atribuída a um corpo ainda entendido em sentido objetivo-
A tese de que a existência biológica está engrenada na existência humana implica que viver seja operação primordial a partir da qual se torna possível vivenciar tal ou qual mundo, de modo que nos alimentamos e respiramos antes de perceber e acessar a vida de relação
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O corpo significante permanece corpo vivo em vez de a vida ser vida de significações, evidenciando que a questão da linguagem constitui prova para uma fenomenologia da percepção, cuja recusa do intelectualismo exige uma gênese da idealidade que a concepção ainda naturalista do corpo impede de satisfazer
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A demarche da Phénoménologie de la perception é essencialmente arqueológica, descritiva e negativa, voltada a mostrar a irredutibilidade do percebido à idealidade sem percorrer satisfatoriamente o caminho inverso, subordinando a expressão à percepção em vez de descrever esta desde a possibilidade daquela
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A ambição, afirmada na Introdução da Phénoménologie de la perception, de uma reflexão capaz de esclarecer tanto a inerência vital quanto a intenção racional não se realiza, permanecendo a percepção como camada distinta e separada da ordem da significação, o que confirma que o risco de o percebido figurar simples aparência diante do entendimento puro não é objeção meramente retórica
Daí a orientação da pesquisa após 1945, voltada a aprofundar a significação do percebido para fazê-lo aparecer como o próprio lugar da racionalidade, compreendendo o sentir como começo do saber e mostrando que não há saber sem inscrição sensível-
A tese de que tudo é percepção, pois nenhuma ideia ou reflexão deixa de portar sua data, implica apreender o mundo segundo a dupla exigência da arché e do telos, condição para reduzir definitivamente o intelectualismo mediante uma reflexão orientada para a expressão linguística
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O propósito de mostrar que o conhecimento e a comunicação com outrem continuam e conservam a vida perceptiva ao transformá-la, sublimando a encarnação em vez de suprimi-la, opõe à má ambiguidade da percepção a boa ambiguidade do fenômeno da expressão, espontaneidade que reúne num único tecido a pluralidade das mônadas, o passado e o presente, a natureza e a cultura, momento em que a fenomenologia da percepção se cumpre como filosofia da expressão, germe de toda a ontologia de Merleau-Ponty
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