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VISÃO (LM)

ARENDT, Hannah. A Vida do Espírito. Tr. Antônio Abranches e Cesar Augusto R. de Almeida e Helena Martins. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2000 / The Life of the Mind: the Groundbreaking Investigation on How We Think. Boston: Houghton Mifflin Harcourt, 1981 [LM]

  • As atividades espirituais, concebidas em palavras e inseparáveis do discurso como a VISÃO é inseparável do ver e do ser visto, retiram-se do mundo das aparências sem constituírem um interior da alma, exigem metáforas oriundas da experiência sensível para transpor o hiato entre evidência sensorial e pensamento, distinguem espírito e alma contra a identificação operada por Merleau-Ponty, e definem o pensamento como abismo sem fundo enquanto a alma permanece ancorada no corpo [Arendt, Vida do Espírito I O Pensar 4].
    • “Pensamento e discurso antecipam um ao outro” (Merleau-Ponty, Signs).
    • Emoções como experiências somáticas não metafóricas.
    • Crítica à noção de “vida interna” da alma.
    • Espírito sem quiasma com o corpo; alma como transbordamento corporal.
  • A distinção de Portmann entre aparências autênticas e não autênticas evidencia que ilusões naturais e inevitáveis, como o movimento do Sol, persistem mesmo após esclarecimento científico, que não há um eu interno permanente acessível à VISÃO interior, e que sensações internas carecem de forma estável, sendo a repetição o único traço de pseudo-permanência psíquica segundo Kant e Merleau-Ponty [Arendt, Vida do Espírito I O Pensar 5].
    • Ilusões “naturais e inevitáveis” (Kant).
    • Crítica ao positivismo que exclui fenômenos espirituais.
    • “Nenhum eu fixo e durável” (Kant).
    • O “psiquismo” opaco a si mesmo (Merleau-Ponty).
  • Cada sentido corresponde a uma propriedade mundana específica e a VISÃO torna o mundo visível, mas o sexto sentido, a realidade, não é percebido como sensação isolada e funciona como contexto que acompanha todas as percepções, aproximando-se do Ser filosófico e sendo definido por Tomás de Aquino como sensus communis, raiz comum dos sentidos [Arendt, Vida do Espírito I O Pensar 7].
    • Realidade como contexto evasivo.
    • Peirce: realidade “está lá”.
    • Sensus communis como sentido interior.
  • As atividades espirituais, não-aparentes em um mundo de aparências, exigem retirada deliberada do presente sensível, dependem da imaginação definida por Kant como faculdade de intuição sem objeto presente, e tornam possível passado, futuro, vontade e juízo mediante re-presentação do ausente [Arendt, Vida do Espírito I O Pensar 9].
    • Imaginação como condição do pensar.
    • Vontade como transformação do desejo em intenção.
    • Juízo requer afastamento da parcialidade.
  • Agostinho descreve o processo pelo qual a VISÃO externa gera imagem interna armazenada na memória e convertida em VISÃO em pensamento, distinguindo objeto sensível, imagem e objeto pensado, e mostrando que o pensamento ultrapassa a imaginação ao conceber infinitude e divisibilidade além de qualquer VISÃO corpórea [Arendt, Vida do Espírito I O Pensar 9].
    • “VISÃO similar interna”.
    • Diferença entre memória e lembrança ativa.
    • Razão proclama infinitude além da imaginação.
  • A teoria, derivada de theatai, funda-se na posição do espectador cuja VISÃO externa permite compreender a verdade do espetáculo ao preço da retirada da ação, estabelecendo distinção entre agir e compreender [Arendt, Vida do Espírito I O Pensar 11].
    • “Teórico” como contemplador.
    • Verdade acessível ao espectador.
  • A prioridade da VISÃO na metafísica ocidental associa verdade à metáfora visual, enquanto o logos exige justificação discursiva, e Wittgenstein relaciona a escrita hieroglífica à ideia de verdade como retrato visual dos fatos [Arendt, Vida do Espírito I O Pensar 12].
    • Nous versus logos.
    • Tractatus 4.016.
    • Relação entre escrita e VISÃO.
  • A linguagem filosófica é essencialmente metafórica, transfere relações por analogia segundo Aristóteles e Kant, e utiliza metáforas visuais para tornar manifestas ideias especulativas que transcendem o mundo das aparências [Arendt, Vida do Espírito I O Pensar 12].
    • Metáfora como relação B:A = D:C.
    • Kant: metáfora estabelece realidade dos conceitos.
    • Metabasis eis allo genos.
  • Termos como noeomai, energeia, kategoria e ratio mostram deslocamentos metafóricos que associam VISÃO e pensamento, revelando como a evidência visual estruturou o vocabulário filosófico desde Platão e Aristóteles até Cícero [Arendt, Vida do Espírito I O Pensar 12].
    • Noeomai de ver a apreender.
    • Energeia versus dynamis.
    • Ratio et oratio.
  • Desde a filosofia grega, o pensamento foi concebido em termos de VISÃO, que serve de modelo para percepção e verdade, embora tradições da Vontade recorram ao desejo ou à audição e Hans Jonas destaque a nobreza da VISÃO na história metafísica [Arendt, Vida do Espírito I O Pensar 13].
    • Heráclito: olhos mais exatos que ouvidos.
    • Aristóteles sobre audição e nous.
    • Heidegger e a metáfora auditiva.
  • O juízo retira sua metáfora do gosto, sentido privado e idiossincrático oposto à distância nobre da VISÃO, levantando o problema da pretensão de validade universal do julgamento [Arendt, Vida do Espírito I O Pensar 13].
    • Kant: Crítica do gosto.
    • Comunicação do juízo.
  • Hans Jonas enumera as vantagens da VISÃO como distância objetiva, múltiplo contemporâneo, liberdade do observador e fundamento sensível da ideia de eterno, em contraste com a audição que invade o sujeito [Arendt, Vida do Espírito I O Pensar 13].
    • Distância como condição de objetividade.
    • VISÃO introduz o observador.
    • Audição como passividade.
  • Platão, no Fedro e no Philebus, contrapõe palavra escrita e fala viva e descreve o pensamento como escrita e pintura interior, onde a VISÃO de imagens mentais acompanha o discurso interior [Arendt, Vida do Espírito I O Pensar 13].
    • Techne dialektike.
    • Alma como livro.
    • Pintor interior das imagens.
  • A incompatibilidade entre intuição visual e discurso sequencial leva Kant e Heidegger a conceber o logos como instrumento subordinado à VISÃO, mantendo a intuição como ideal de verdade filosófica [Arendt, Vida do Espírito I O Pensar 13].
    • Kant: todo pensamento visa à intuição.
    • Heidegger: logos enraizado em horan.
  • Os sentidos não se traduzem entre si e a linguagem apenas nomeia o objeto comum acessível à VISÃO, audição e tato, permanecendo incapaz de expressar plenamente qualidades sensoriais privadas [Arendt, Vida do Espírito I O Pensar 13].
    • Sensus communis.
    • “Uma rosa é uma rosa é uma rosa.”
  • A verdade metafísica, fundada na metáfora da VISÃO, é autoevidente e inefável, distinta da tradição hebraica da audição que exige obediência, e exemplificada na adequatio rei et intellectus ilustrada por Heidegger e Tomás de Aquino [Arendt, Vida do Espírito I O Pensar 13].
    • Episteme que contempla o ente.
    • Adequatio rei et intellectus.
    • Exemplo do quadro torto.
  • A identificação entre busca filosófica de significado e busca científica de conhecimento reforçou a primazia da VISÃO e da intuição como forma suprema de verdade confirmada pela evidência sensível [Arendt, Vida do Espírito I O Pensar 13].
    • Thaumazein como origem.
    • Confirmação sensorial.
  • O pensamento, dependente do discurso sequencial, não pode culminar em intuição autoevidente, e Bergson descreve a fuga do significado quando tratado como objeto visual fixo [Arendt, Vida do Espírito I O Pensar 13].
    • Intuição metafísica.
    • Objeto que “foge”.
  • A diminuição da metáfora da VISÃO na filosofia moderna desloca o critério de verdade para a consistência lógica, enquanto Heidegger e Benjamin preservam imagens residuais como relâmpago ou som do silêncio [Arendt, Vida do Espírito I O Pensar 13].
    • Não-contradição como critério.
    • Blitz e Gelaüt der Stille.
  • Para os gregos, a filosofia como obtenção da imortalidade realiza-se na contemplação não discursiva do nous e na posterior tradução verbal da VISÃO eterna [Arendt, Vida do Espírito I O Pensar 14].
    • Nous e logos.
    • Alétheuein.
  • A tradução da VISÃO do nous em logos enfrenta a exigência de homoiosis, enquanto a eternidade do objeto visto é o critério próprio da VISÃO, segundo Aristóteles e o Timaeus [Arendt, Vida do Espírito I O Pensar 14].
    • Homoiosis versus doxa.
    • Participação no eterno.
  • Epicteto sustenta que o espírito retém impressões e que somente a faculdade racional pode julgar além da VISÃO sensorial, tratando objetos como dados internos [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 9].
    • Phantasiai.
    • Dynamis logike.
  • Agostinho descreve a atenção do espírito, função da Vontade, como força que fixa a VISÃO no objeto e transforma sensação em percepção consciente [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 10].
    • Atenção como nexo.
    • Ver sem perceber.
  • O juízo moral, embora fundado no gosto privado e incomunicável, é elevado à faculdade espiritual de julgar, suscitando a tensão entre privacidade sensorial e pretensão universal [Arendt, Vida do Espírito Apêndice O Julgar].
    • Gosto como sentido discriminatório.
    • De gustibus non disputandum est.
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