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estudos:arendt:perdoar-ch

PERDOAR (CH:§33)

ARENDT, H. The human condition. 2nd ed ed. Chicago: University of Chicago Press, 1998.

  • A descoberta do papel do perdão no domínio dos assuntos humanos é atribuída a Jesus de Nazaré, cuja formulação em linguagem religiosa não diminui seu alcance secular, pois certos aspectos de seu ensinamento, oriundos da experiência política de uma pequena comunidade que desafiava as autoridades públicas de Israel, pertencem a experiências políticas autênticas negligenciadas pela tradição seletiva do pensamento político, encontrando apenas sinais rudimentares no princípio romano do parcere subiectis e no direito de comutar a pena de morte.
    • Inserção da descoberta em contexto religioso sem perda de validade secular.
    • Caráter seletivo da tradição do pensamento político.
    • Origem comunitária e politicamente situada de parte dos ensinamentos de Jesus.
    • Referência ao princípio romano de poupar os vencidos.
    • Menção à prerrogativa de comutar a pena capital nos Estados ocidentais.
  • Jesus sustenta contra escribas e fariseus que o poder de perdoar não pertence exclusivamente a Deus nem deriva de delegação divina, mas deve ser exercido pelos homens entre si como condição para o perdão divino, formulando de modo radical que Deus perdoa na medida em que os homens perdoam uns aos outros.
    • Referências aos Evangelhos de Lucas, Mateus e Marcos.
    • Ênfase na expressão “sobre a Terra”.
    • Reciprocidade entre perdão humano e divino.
    • Insistência na mobilização humana do poder de perdoar.
    • Centralidade da expressão “perdoa-nos assim como perdoamos”.
  • O dever de perdoar fundamenta-se na ignorância comum das ações cotidianas e não se aplica ao mal voluntário extremo, cuja retribuição pertence ao Juízo Final, enquanto as transgressões ordinárias, inerentes à teia das relações estabelecidas pela ação, exigem liberação constante para que a vida possa prosseguir.
    • Distinção entre transgressão cotidiana e mal deliberado.
    • Referência à necessidade de perdoar repetidamente quem muda de ideia.
    • Observações filológicas sobre aphienai, metanoein e hamartanein, com menção a Heinrich Ebeling.
    • Alusão ao Juízo Final como retribuição justa (apodounai).
    • Relação entre perdão e continuidade da ação humana.
    • Condição da liberdade como constante disposição para recomeçar.
  • O perdão constitui o oposto da vingança, pois enquanto esta perpetua a reação em cadeia inerente à irreversibilidade da ação, aquele age de modo inesperado e liberta tanto quem perdoa quanto quem é perdoado do automatismo do processo desencadeado.
    • Vingança como reação automática e calculável.
    • Perdão como reação imprevisível.
    • Caráter ativo e inaugural do ato de perdoar.
    • Libertação mútua das consequências do ato inicial.
    • Superação do encadeamento incessante das ações.
  • Punição e perdão compartilham a tentativa de pôr termo a processos potencialmente intermináveis, mas revelam o limite humano diante do que Kant denominou mal radical, ofensas que transcendem a capacidade de punir ou perdoar e destroem o domínio dos assuntos humanos.
    • Referência explícita a Kant e ao conceito de mal radical.
    • Incapacidade de punir o imperdoável.
    • Transcendência dessas ofensas ao poder humano.
    • Destruição radical do espaço dos assuntos humanos.
    • Evocação das palavras de Jesus sobre a pedra de moinho.
  • O caráter revelador do perdão aproxima-o da ação, pois ao perdoar considera-se quem praticou o ato, estabelecendo relação pessoal reconhecida por Jesus e associada ao amor, cuja capacidade singular de perceber o quem ignora qualidades e falhas e dissolve o espaço-entre que separa as pessoas.
    • Citação evangélica sobre amar muito e ser muito perdoado.
    • Convicção corrente de que só o amor pode perdoar.
    • Amor como força de autorrevelação.
    • Indiferença às qualidades, realizações ou falhas.
    • Supressão do espaço-entre nas relações amorosas.
  • O amor, embora possa gerar um novo mundo simbolizado pelo filho como espaço-entre comum, permanece por natureza não-mundano e antipolítico, exigindo transformação ou superação para reintegrar os parceiros ao mundo compartilhado.
    • Filho como produto do amor e mediação mundana.
    • Referências a H. A. Frankfort e Mircea Eliade.
    • Inserção de um novo mundo no mundo existente.
    • Amor como força apolítica e antipolítica.
    • Necessidade de transformação do vínculo amoroso.
  • Ainda que a cristandade tenha suposto que apenas o amor pode perdoar, no domínio mais amplo dos assuntos humanos o respeito, análogo à philia politike aristotélica, cumpre essa função ao considerar a pessoa desde a distância do espaço público, possibilitando o perdão e revelando que ninguém pode perdoar a si próprio por depender do reconhecimento dos outros.
    • Referência à philia politike de Aristóteles.
    • Respeito como amizade sem intimidade.
    • Distância mundana que fundamenta a consideração.
    • Sintoma moderno de despersonalização pela perda do respeito.
    • Impossibilidade de autoperdão.
    • Dependência do outro para revelação do quem na ação e no discurso.
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