CONCEITO DE EU EM HEIDEGGER (LM:182-187)
ARENDT, Hannah. A Vida do Espírito. Tr. Antônio Abranches e Cesar Augusto R. de Almeida e Helena Martins. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2000
* O conceito de Eu sofre na “reviravolta” a mudança mais inesperada e consequente, pois em Ser e Tempo o Eu responde à questão Quem é o homem, em oposição ao que ele é, designando a existência humana autêntica extraída polemicamente do “Eles”, como solus ipse em um “solipsismo existencial” que realiza o principium individuationis originalmente atribuído ao Cuidado como órgão do futuro.
-
O Eu define-se como existência e não como qualidade
-
O autêntico ser-um-Eu constitui modificação existencial do “Eles”
-
O “solipsismo existencial” realiza a individuação
-
O Cuidado antecede a Vontade como instância dessa realização
* A semelhança entre Cuidado e Vontade no cenário moderno aparece na distinção bergsoniana entre um eu social e um eu fundamental, cuja recuperação pela vontade exige libertação da linguagem social saturada de clichês, afirmando a espontaneidade criadora como prova imediata da consciência, em consonância com Nietzsche e com formulações de Heidegger anteriores à “reviravolta”.
-
Bergson distingue o eu social do eu real e concreto
-
A linguagem social obscurece o eu fundamental
-
A espontaneidade constitui força incomparável
-
A criatividade artística exemplifica a ausência de causas antecedentes
-
Heidegger associa querer a trazer-se a si mesmo autenticamente
* A afinidade entre Heidegger e seus predecessores limita-se a esse ponto, pois em Ser e Tempo a criatividade artística é quase ausente e o Eu manifesta-se na “voz da consciência”, que convoca o homem a retornar do enredamento no “Eles” e revela tal retorno como culpa, termo que em alemão significa tanto responsabilidade quanto dívida.
-
A fala poética surge apenas lateralmente
-
A tensão entre poeta e filósofo não implica criatividade pura
-
A consciência chama do “man” impessoal
-
Schuld indica culpa e dívida simultaneamente
* A ideia de culpa em Heidegger afirma que a existência humana é culpada enquanto factualmente existente, devendo realizar autenticamente essa culpa originária ligada tanto à exclusão das possibilidades não escolhidas em toda ação quanto ao “ser lançado no mundo”, que implica dívida ontológica por dever a existência a algo que não é ela mesma.
-
A culpa não decorre de omissões ou práticas específicas
-
Agir elimina possibilidades alternativas
-
Comprometer-se implica renúncia
-
O ser lançado funda a dívida primordial
-
A existência não é trazida por si mesma
* A consciência exige a aceitação dessa dívida como uma ação interior silenciosa, oposta às ações públicas visíveis, consistindo em deixar o próprio eu agir em sua dívida por meio do pensamento, razão pela qual Heidegger evita tratar da ação e rejeita a interpretação comum da consciência como diálogo silencioso consigo mesmo, admitindo apenas marginalmente a “voz de um amigo” que cada Dasein traz consigo.
-
O agir autêntico contrapõe-se à “espuma” da vida pública
-
A ação interior realiza-se no pensamento
-
A interpretação tradicional da consciência é denunciada
-
O diálogo consigo é visto como autojustificação inautêntica
-
A “voz de um amigo” aparece como referência marginal
* A análise heideggeriana da consciência, apesar de sua estranheza fenomenológica, aponta para a posterior identificação entre pensar e agradecer, pois o chamado recupera o eu individualizado de seu envolvimento cotidiano e o conduz a um pensamento de gratidão pelo simples fato de que algo foi dado, convertendo o confronto com o Ser em atitude de agradecimento comparável ao thaumazein platônico e ecoado em Nietzsche, Osip Mandelstam, Rainer Maria Rilke e W.H. Auden.
-
O eu é retirado da corrente histórica superficial
-
O pensamento expressa gratidão pelo dado
-
A atitude remete ao espanto admirativo
-
Nietzsche afirma a exaltação dos que dizem Sim
-
Mandelstam valoriza a terra sobre mil céus
-
Rilke proclama fidelidade à terra
-
Auden invoca a bênção do que existe
* A fusão entre pensar e agir em Heidegger ultrapassa a dessubjetivização cartesiana ao identificar a atividade do pensador com as mudanças na “História do Ser”, na qual o Ser inspira secretamente os acontecimentos enquanto os pensadores, ocultos sob o “Eles”, respondem ao Ser e o realizam como contracorrente no curso dos eventos.
-
A “História do Ser” guia o que ocorre na superfície
-
O pensador atua protegido pelo anonimato
-
O conceito personificado torna-se encarnado
-
A contracorrente emerge no interior da história factual
* O pensador, antigo “autêntico Eu”, passa a ouvir o chamado do Ser em vez do chamado da consciência, e a “reviravolta” implica abandono do agir em si mesmo para desempenhar, pelo pensamento puro e obediente ao Ser, o papel de contracorrente subjacente às aparências dominadas pela vontade de potência.
-
O chamado desloca-se da consciência para o Ser
-
O agir factual decorre da escuta autêntica
-
Abandona-se o In-sich-handeln-lassen des eigensten Selbst
-
O pensamento puro confronta a corrente da vontade de potência
* O “Eles” reaparece transformado, não mais caracterizado pelo palavrório, mas pela destrutividade inerente ao querer, em consonância com a radicalização da tensão entre pensar e querer e com a atualização do conceito personificado do “Espírito do Mundo” de Hegel, que em Heidegger encontra encarnação no pensador como Ninguém atuante por trás dos homens de ação.
-
O “Eles” assume feição destrutiva
-
A tensão entre pensar e querer resolve-se no querer-não-querer
-
O Espírito do Mundo de Hegel serve de precedente
-
O Ninguém ganha forma na figura do pensador
* O pensador permanece solus ipse no “solipsismo existencial”, mas agora o destino do mundo e a História do Ser dependem de sua ação sem fazer nada, atuando invisivelmente como figura identificável apenas como Pensador, sem retorno ao mundo das aparências.
-
O solipsismo mantém-se sob nova configuração
-
O agir consiste em não-fazer exterior
-
O destino histórico vincula-se ao pensamento
-
A invisibilidade preserva-se apesar da personificação
