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Condição Humana

ARENDT, Hannah. The human condition. 2nd ed ed. Chicago: University of Chicago Press, 1998. / ARENDT, Hannah. A Condição Humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007.

  • Em 1957 um objeto de origem terrena feito pelo homem foi lançado ao universo, onde durante algumas semanas circulou a terra segundo as mesmas leis de gravitação que regem os corpos celestes — o sol, a lua e as estrelas —, não sendo o satélite artificial lua ou estrela, mas conseguindo por um tempo permanecer nos céus, como se admitido provisoriamente à sublime companhia dos corpos celestes
  • Esse acontecimento, de importância não inferior a nenhum outro, nem mesmo à cisão do átomo, teria sido saudado com alegria sem reservas não fossem as incômodas circunstâncias militares e políticas que o acompanhavam, sendo curioso que essa alegria não tenha sido triunfal, não sendo orgulho ou espanto diante da imensidão do poder e domínio humanos o que encheu os corações dos homens ao olharem dos céus para baixo e verem ali algo de sua própria fatura
    • A reação imediata, expressa no calor do momento, foi de alívio pelo primeiro “passo em direção à fuga do aprisionamento dos homens à terra”, ecoando essa estranha declaração, longe de ser deslize acidental de algum repórter americano, a extraordinária frase gravada mais de vinte anos antes no obelisco funerário de um dos grandes cientistas russos — “A humanidade não permanecerá para sempre presa à terra”
  • Tais sentimentos são há algum tempo lugar-comum, mostrando que os homens em toda parte não são de modo algum lentos em acompanhar e ajustar-se às descobertas científicas e aos desenvolvimentos técnicos, tendo antes se antecipado a eles em décadas, tendo a ciência realizado e afirmado o que os homens já anteciparam em sonhos que não eram nem delirantes nem ociosos
    • O novo é apenas que um dos jornais mais respeitáveis do país finalmente trouxe à primeira página o que até então estava enterrado na literatura nada respeitável da ficção científica, à qual, infelizmente, ninguém ainda dedicou a atenção que merece como veículo de sentimentos e desejos de massa
    • A banalidade da declaração não deve fazer esquecer quão extraordinária ela de fato era, pois, embora os cristãos tenham falado da terra como um vale de lágrimas e os filósofos considerado seu corpo como prisão da mente ou da alma, ninguém na história da humanidade jamais concebera a terra como prisão para os corpos dos homens nem mostrara tal ardor em ir literalmente daqui até a lua
    • Deveria a emancipação e secularização da era moderna, iniciada com um afastamento não necessariamente de Deus, mas de um deus que era o Pai dos homens no céu, terminar com uma repúdio ainda mais fatídico de uma Terra que era a Mãe de todas as criaturas vivas sob o céu?
  • A terra é a própria quintessência da condição humana, podendo a natureza terrena, pelo que se sabe, ser única no universo em oferecer aos seres humanos um habitat no qual podem se mover e respirar sem esforço e sem artifício
    • O artifício humano do mundo separa a existência humana de todo ambiente meramente animal, mas a vida em si está fora desse mundo artificial, permanecendo o homem, através da vida, relacionado a todos os demais organismos vivos
    • Há algum tempo, grande número de empreendimentos científicos vem se dirigindo a tornar também a vida “artificial”, a cortar o último laço pelo qual mesmo o homem pertence aos filhos da natureza, sendo o mesmo desejo de escapar do aprisionamento à terra que se manifesta na tentativa de criar vida em tubo de ensaio, no desejo de misturar “plasma germinal congelado de pessoas de habilidade comprovada sob o microscópio para produzir seres humanos superiores” e “alterar [seu] tamanho, forma e função”
    • O desejo de escapar da condição humana, suspeita-se, também subjaz à esperança de estender a vida humana muito além do limite de cem anos
  • Esse homem futuro, que os cientistas dizem que produzirão em não mais de cem anos, parece possuído por uma rebelião contra a existência humana tal como foi dada, um dom gratuito vindo de lugar nenhum (secularmente falando), que ele deseja trocar, por assim dizer, por algo que ele mesmo fabricou
    • Não há razão para duvidar de nossa capacidade de realizar tal troca, assim como não há razão para duvidar de nossa atual capacidade de destruir toda vida orgânica na terra, sendo a questão apenas se desejamos usar nosso novo conhecimento científico e técnico nessa direção, questão que não pode ser decidida por meios científicos, sendo antes questão política de primeira ordem que dificilmente pode ser deixada à decisão de cientistas ou políticos profissionais
  • Embora tais possibilidades ainda possam residir num futuro distante, os primeiros efeitos bumerangue dos grandes triunfos da ciência já se fizeram sentir numa crise no interior das próprias ciências naturais
    • O problema concerne ao fato de que as “verdades” da visão de mundo científica moderna, embora possam ser demonstradas em fórmulas matemáticas e comprovadas tecnologicamente, já não se prestam à expressão normal em fala e pensamento, tornando-se, no momento em que essas “verdades” são ditas conceitual e coerentemente, afirmações “talvez não tão desprovidas de sentido quanto um 'círculo triangular', mas muito mais do que um 'leão alado'” (Erwin Schrödinger)
    • Ainda não se sabe se essa situação é definitiva, podendo ser que, sendo criaturas presas à terra que começaram a agir como se fossem habitantes do universo, sejamos para sempre incapazes de compreender, isto é, de pensar e falar sobre as coisas que, no entanto, somos capazes de fazer
    • Nesse caso, seria como se o cérebro, que constitui a condição física, material de nossos pensamentos, fosse incapaz de acompanhar o que fazemos, de modo que doravante precisaríamos de fato de máquinas artificiais para pensar e falar por nós
    • Se se revelar verdadeiro que o conhecimento (no sentido moderno de saber-fazer) e o pensamento se separaram definitivamente, tornar-nos-íamos escravos indefesos, não tanto de nossas máquinas quanto de nosso saber-fazer, criaturas sem pensamento à mercê de todo artefato tecnicamente possível, por mais assassino que seja
  • Mesmo à parte essas últimas e ainda incertas consequências, a situação criada pelas ciências tem grande significação política, tornando-se as questões políticas por definição sempre que a relevância da fala está em jogo, pois a fala é o que faz do homem um ser político
    • Se se seguisse o conselho, tão frequentemente exortado, de ajustar as atitudes culturais ao presente estado da realização científica, adotar-se-ia com toda seriedade um modo de vida em que a fala já não tem sentido, tendo as ciências hoje sido forçadas a adotar uma “linguagem” de símbolos matemáticos que, embora originalmente pretendida apenas como abreviatura de enunciados falados, contém agora afirmações que de modo algum podem ser traduzidas de volta em fala
    • A razão pela qual pode ser sensato desconfiar do julgamento político dos cientistas enquanto cientistas não é primariamente sua falta de “caráter” — não terem se recusado a desenvolver armas atômicas — ou sua ingenuidade — não terem compreendido que, uma vez desenvolvidas essas armas, seriam os últimos a serem consultados sobre seu uso —, mas precisamente o fato de se moverem num mundo onde a fala perdeu seu poder
    • O que quer que os homens façam, saibam ou experimentem só pode fazer sentido na medida em que possa ser falado, podendo haver verdades além da fala, de grande relevância talvez para o homem no singular, isto é, para o homem enquanto não é um ser político, seja lá o que mais possa ser, mas os homens no plural, isto é, os homens enquanto vivem, se movem e agem neste mundo, só podem experimentar sentido porque podem falar uns com os outros e fazer sentido uns para os outros e para si mesmos
  • Mais próximo, e talvez igualmente decisivo, é outro acontecimento não menos ameaçador — o advento da automação, que em poucas décadas provavelmente esvaziará as fábricas e libertará a humanidade de seu mais antigo e natural fardo, o fardo do labor e a sujeição à necessidade
    • Também aqui um aspecto fundamental da condição humana está em jogo, mas a rebelião contra ele, o desejo de ser libertado do “labor e das dores” do trabalho, não é moderna mas tão antiga quanto a história registrada, não sendo nova a liberdade do labor em si, que outrora pertenceu aos privilégios mais firmemente estabelecidos de poucos
    • Nesse caso parece que o progresso científico e os desenvolvimentos técnicos apenas foram aproveitados para alcançar algo com que todas as eras anteriores sonharam mas nenhuma pudera realizar
  • Isso, contudo, é assim apenas na aparência, tendo a era moderna carregado consigo uma glorificação teórica do labor e resultado na transformação factual de toda a sociedade numa sociedade laborante
    • O cumprimento do desejo, portanto, como o cumprimento dos desejos nos contos de fadas, chega num momento em que só pode ser autodestrutivo, sendo uma sociedade de laborantes que está prestes a ser libertada dos grilhões do labor, sociedade que já não conhece aquelas outras atividades mais altas e significativas em nome das quais essa liberdade mereceria ser conquistada
    • No interior dessa sociedade, igualitária por ser esse o modo do labor fazer os homens viverem juntos, não resta classe alguma, nenhuma aristocracia de natureza política ou espiritual a partir da qual pudesse recomeçar uma restauração das demais capacidades do homem
    • Até presidentes, reis e primeiros-ministros pensam em seus cargos em termos de um emprego necessário à vida da sociedade, e entre os intelectuais restam apenas indivíduos solitários que consideram o que fazem em termos de obra e não em termos de ganhar a vida
    • O que se enfrenta é a perspectiva de uma sociedade de laborantes sem labor, isto é, sem a única atividade que lhes resta, não podendo certamente haver nada pior
  • A essas preocupações e perplexidades este livro não oferece resposta, sendo tais respostas dadas todos os dias, matéria de política prática sujeita ao acordo de muitos, jamais podendo residir em considerações teóricas ou na opinião de uma só pessoa, como se lidássemos aqui com problemas para os quais só uma solução é possível
    • O que se propõe a seguir é uma reconsideração da condição humana a partir do ponto de vista de nossas experiências mais recentes e de nossos temores mais recentes, sendo isso obviamente questão de pensamento, parecendo a ausência de pensamento — a imprudência descuidada ou a confusão desesperançada ou a repetição complacente de “verdades” tornadas triviais e vazias — uma das características marcantes de nosso tempo
    • O que se propõe, portanto, é muito simples — nada mais que pensar o que estamos fazendo
  • “O que estamos fazendo” é de fato o tema central deste livro, que trata apenas das articulações mais elementares da condição humana, daquelas atividades que tradicionalmente, bem como segundo a opinião corrente, estão ao alcance de todo ser humano
    • Por essa e outras razões, a mais alta e talvez mais pura atividade de que os homens são capazes, a atividade do pensar, é deixada fora destas considerações presentes
    • Sistematicamente, portanto, o livro se limita a uma discussão do labor, da obra e da ação, que formam seus três capítulos centrais, tratando-se historicamente, num último capítulo, da era moderna, e ao longo de todo o livro das várias constelações dentro da hierarquia das atividades tal como as conhecemos da história ocidental
  • A era moderna, contudo, não é o mesmo que o mundo moderno — cientificamente, a era moderna, iniciada no século dezessete, chegou a seu fim no início do século vinte; politicamente, o mundo moderno, em que hoje vivemos, nasceu com as primeiras explosões atômicas
    • Não se discute esse mundo moderno, contra cujo pano de fundo este livro foi escrito, limitando-se a análise, por um lado, às capacidades humanas gerais que crescem a partir da condição humana e são permanentes, isto é, que não podem ser irremediavelmente perdidas enquanto a própria condição humana não for alterada
    • O propósito da análise histórica, por outro lado, é remontar a alienação do mundo moderno, sua dupla fuga da terra para o universo e do mundo para o eu, às suas origens, a fim de chegar a uma compreensão da natureza da sociedade tal como se desenvolveu e se apresentou no exato momento em que foi superada pelo advento de uma nova e ainda desconhecida era
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