User Tools

Site Tools


Action unknown: copypageplugin__copy
estudos:aho:2019:1.2

1.2 Depressão

AHO, Kevin. Contexts of suffering: a Heideggerian approach to psychopathology. London New York (N.Y.): Rowman & Littlefield International, 2019.

Perturbações do corpo, do humor e do eu

1. A crítica de Marcia Angell à biopsiquiatria sustenta que a mídia, a indústria farmacêutica e profissionais médicos contribuíram para fabricar uma crise de saúde mental ao aceitar sem suficiente exame a hipótese de que transtornos como a depressão decorrem de desequilíbrios químicos cerebrais corrigíveis por antidepressivos, enquanto a reação de psiquiatras defensores da legitimidade médica da depressão e da eficácia desses medicamentos permaneceu concentrada na validade bioquímica e terapêutica, deixando em segundo plano a experiência vivida das próprias pessoas deprimidas.

  • Peter Kramer defendeu a legitimidade médica da depressão e os benefícios de longo prazo dos antidepressivos.
  • John Oldham deslocou a questão causal para a eficácia prática dos medicamentos em aliviar o sofrimento.
  • Daniel Carlat sustentou que, independentemente das dúvidas sobre a teoria do desequilíbrio químico, os antidepressivos funcionam em termos gerais.
  • O ponto ausente nesse debate é a consideração sistemática dos relatos em primeira pessoa.
  • A exclusão dessas narrativas como meramente anedóticas impede compreender o significado afetivo e experiencial da depressão.

2. Embora as ciências sociais já tenham recorrido amplamente a relatos experienciais para criticar o complexo psicofarmacêutico e examinar fatores históricos e socioeconômicos associados à depressão, a investigação proposta é estritamente fenomenológica e procura descrever como a depressão se manifesta por si mesma, sem pressupor previamente sua natureza ontológica.

  • O foco recai sobre a maneira como a pessoa deprimida experiencia o mundo.
  • Consideram-se também seu modo de mover-se no espaço vivido e de compreender e expressar quem é.

Movimento e espaço vivido

1. A abordagem fenomenológica da doença mental revela os limites da concepção neuroquímica do eu porque a redução da pessoa deprimida a um sistema causal de circuitos neurais não oferece acesso ao modo como ela efetivamente sente e experiencia sua condição.

  • A fenomenologia não compreende o indivíduo como mero corpo físico (Körper), mas como corpo vivido (Leib).
  • O corpo vivido é uma maneira situada, afetiva e corporal de existir.
  • O corpo não é apenas organismo natural, mas horizonte mediador através do qual se percebe, sente, interage com outros e compreende o mundo.
  • Não se possui simplesmente um corpo; é-se corporalmente.

2. O caráter enigmático do corpo vivido consiste em sua habitual invisibilidade, pois, quando se está saudável e absorvido nas atividades cotidianas, vive-se através dele sem tematizá-lo reflexivamente.

  • Braços, pernas, mãos e a corporeidade como um todo tornam-se transparentes no fluxo prático da vida.
  • Nas atividades ordinárias, não há separação originária entre eu e mundo porque já se está incorporado à situação.
  • Tomar banho, vestir-se ou preparar café ocorre geralmente sem reflexão mental explícita.
  • A orientação primária no mundo é um fazer pré-reflexivo anterior à distinção mente-corpo.
  • O “eu posso” de Merleau-Ponty exprime essa capacidade corporal espontânea.
  • O esquema corporal (schéma corporel) designa a apreensão cinestésica e sensório-motora que permite mover-se e orientar-se pré-reflexivamente no mundo.
  • Esse esquema simultaneamente possibilita e limita postura, marcha e movimento conforme as atividades e projetos em curso.

3. Nos relatos em primeira pessoa da depressão, aparece repetidamente a ruptura desse esquema mediador, em que o espontâneo “eu posso” é substituído por um incapacitante “eu não posso”, e a integração fluida entre corpo e mundo se torna lenta, pesada e restritiva.

  • A capacidade ordinária de levantar-se, mover-se, estender a mão e agarrar objetos pode ser profundamente comprometida.
  • O mundo pode ser vivido como contraído, fechado e sufocante.
  • Relatos descrevem lentificação extrema, quase paralisia, esgotamento, aprisionamento corporal e incapacidade literal de mover-se.
  • Quanto mais grave a depressão, mais totalizante se torna esse “eu não posso”.

4. Em quadros graves, a incapacidade corporal pode chegar ao ponto de tornar praticamente impossível atravessar um quarto mesmo diante de uma recompensa extremamente desejável, revelando que não se trata simplesmente de falta de motivação, mas de uma ruptura profunda da capacidade incorporada de agir.

5. Outros relatos descrevem o colapso do esquema corporal como uma forma de invalidez física e dependência integral de outras pessoas, na qual a doença é vivida como algo que efetivamente incapacita.

6. A ruptura do vínculo transparente entre corpo e mundo faz com que a própria corporeidade se imponha como algo pesado, desajeitado e estranho, transformando-se em obstáculo ao envolvimento prático.

  • A competência tácita das atividades cotidianas se desfaz.
  • Diminuem tanto as respostas sensório-motoras quanto a capacidade de circular pelo mundo.
  • Apetite, libido e impulso para atividades antes prazerosas também podem desaparecer.
  • Aquilo que antes atraía e mobilizava torna-se indiferente e sem sentido.

7. A perda de interesse pode atingir alimentação, sexualidade, leitura, caminhada e outras atividades anteriormente valorizadas, até que o mundo apareça como inteiramente desprovido de razões para agir ou mover-se.

8. Essa perda de sentido relaciona-se a outra característica fundamental da depressão: a incapacidade de ser afetivamente tocado pelo mundo, na qual projetos e atividades que antes importavam deixam de mobilizar a pessoa, produzindo não apenas tristeza, mas um sentimento de não sentir.

A depressão como tédio profundo

1. A análise heideggeriana dos estados de ânimo permite compreender a dimensão afetiva da depressão porque a existência humana não é estruturada apenas por aquilo que se conhece, mas sobretudo pelo modo como as coisas importam e como se está situado diante delas.

  • A disposição afetiva (Befindlichkeit) designa o fato de sempre já se estar inserido em situações significativas.
  • Estados de ânimo não são acontecimentos privados encerrados no interior da mente.
  • Eles se articulam a contextos públicos de significação.
  • Os estados de ânimo orientam tacitamente a atenção, revelando o que importa em determinada situação.
  • A depressão pode ser compreendida como uma alteração global dessa estrutura de importância, afetando não apenas objetos particulares, mas o mundo como um todo.

2. A análise heideggeriana do tédio (Langeweile), especialmente a distinção entre formas ordinárias e tédio profundo, oferece um modelo para compreender a tonalidade afetiva da depressão.

  • No tédio comum, há normalmente um objeto ou situação identificável, como um livro, filme ou palestra.
  • Uma forma mais profunda pode envolver uma situação inteira, como uma festa que só posteriormente é reconhecida como tediosa.
  • Essas duas formas permanecem situacionais e transitórias.
  • O tédio profundo diferencia-se delas por não estar dirigido a algo determinado.

3. No tédio profundo, o desinteresse envolve o mundo inteiro, de modo que nada se destaca como significativo e tudo parece possuir o mesmo valor ou ausência de valor.

  • Projetos, relações, objetivos e identidades deixam de apresentar diferenças qualitativas relevantes.
  • A tonalidade afetiva penetra a existência de maneira difusa e total.
  • Relatos de depressão descrevem ausência de interesse, afeto e significado em relação a música, amor, sexo, filhos, comida e outras dimensões ordinariamente valiosas.
  • A depressão descolore afetivamente o mundo, razão pela qual são frequentes metáforas de escuridão, cegueira e perda de cor.

4. A experiência pode tornar-se temporalmente contínua e sem contraste, de modo que anos inteiros retrospectivamente pareçam mergulhados numa única tonalidade negra e indistinta.

5. Outros relatos descrevem a depressão como experiência monocromática, processo mental negro ou garoa cinzenta de horror, reforçando a perda de diferenciação afetiva do mundo.

6. Imersa nessa atmosfera, a percepção perde suas qualidades afetivas e aquilo que antes aparecia como vivo, belo ou caloroso torna-se morto e indiferente.

7. A visão de uma árvore intensamente colorida pode permanecer perceptivamente intacta enquanto deixa de produzir qualquer ressonância afetiva, revelando uma separação radical entre reconhecimento perceptivo e capacidade de ser tocado pelo que se percebe.

8. Em casos graves, a perda de afetividade pode levar a experiências de desrealização ou despersonalização, nas quais o mundo parece irreal e a própria presença parece esvaziada.

  • A realidade pode perder substância e adquirir aspecto espectral ou transparente.
  • Pode surgir a sensação de uma barreira entre a pessoa e os objetos do mundo.
  • Até pessoas próximas podem aparecer como figuras estranhamente irreais.

9. A experiência de desrealização pode atingir inclusive a percepção de pessoas íntimas, que continuam externamente reconhecíveis, mas deixam de ser vividas com a familiaridade afetiva habitual.

10. O próprio corpo pode ser percebido como sem vida, opaco ou irreal, comparável a objetos inanimados, produzindo uma ruptura da familiaridade corporal ordinária.

11. Esses relatos indicam que a depressão pode ser vivida como desconexão profunda e totalizante e também esclarecem por que antidepressivos nem sempre são experienciados como simples produtores de felicidade, mas como meios que podem permitir reentrada afetiva no mundo.

  • Alguns relatos descrevem a recuperação da capacidade de sentir tristeza e preocupação de maneira proporcional aos acontecimentos.
  • O benefício pode consistir em restaurar mobilidade afetiva, permitindo entrar e sair dos sentimentos sem permanecer preso à névoa depressiva.

12. A melhora medicamentosa pode ser vivida como recuperação da capacidade de experimentar tristeza, desapontamento e preocupação em sua proporção ordinária e transitória, sem que esses afetos se tornem totalizantes.

13. Outros relatos descrevem a recuperação como saída de um túnel e retorno ao mundo familiar, no qual lugares, objetos e atividades voltam a adquirir reconhecimento afetivo e significado.

14. A restauração do envolvimento afetivo com o mundo revela também algo acerca da constituição do eu, pois a depressão não compromete apenas movimento e afetividade, mas pode enfraquecer a capacidade especificamente humana de autointerpretação e autocriação.

  • O ser humano não é compreendido como substância previamente constituída.
  • A identidade depende da atividade situada de interpretar e conferir sentido às próprias experiências.
  • A depressão pode reduzir ou interromper essa capacidade interpretativa.

O problema da transcendência

1. A afirmação heideggeriana de que a essência do Dasein reside em sua existência significa que não há uma essência previamente constituída determinando quem se é, embora existam fatos que compõem a facticidade (Faktizität), como corporeidade, localização, condições fisiológicas e identidades contextuais.

  • A facticidade limita e condiciona a existência.
  • O Dasein diferencia-se por poder transcender ou ultrapassar (übersteigen) essas determinações mediante interpretação e atribuição de sentido.
  • É possível refletir sobre as próprias condições e decidir como integrá-las à vida.
  • Essas escolhas conferem direção e significado à existência.
  • A transcendência constitui, assim, uma estrutura primordial da subjetividade.

2. A depressão, enquanto elemento da facticidade, pode restringir possibilidades futuras, mas ainda poderia ser interpretada de diferentes maneiras mediante a capacidade de assumir uma posição diante do próprio sofrimento.

  • Pode-se resignar à doença e compreendê-la como destino.
  • Pode-se também integrá-la narrativamente à própria vida.

3. Uma possibilidade de interpretação consiste em abandonar a expectativa de superar completamente a depressão e incorporá-la à própria existência como condição duradoura, aceitando seus limites sem esperar seu desaparecimento.

4. Outra possibilidade consiste em recusar a interpretação da depressão como mero destino desadaptativo e compreendê-la como fonte de aprendizado, profundidade e autoconhecimento.

5. Nessa interpretação, a depressão pode ser acolhida como experiência capaz de ensinar algo sobre a própria vida, desde que seja integrada em vez de simplesmente rejeitada.

6. Em ambas as possibilidades, a identidade se constitui mediante escolhas interpretativas que conferem valor e significado à experiência, de modo que a depressão só adquire sentido existencial na medida em que é incorporada a uma determinada autocompreensão.

7. A própria depressão, contudo, coloca em questão a concepção heideggeriana da transcendência quando ocorre um colapso global do ser-no-mundo e do significado afetivo, pois a capacidade de escolher, interpretar e assumir posição pode ficar profundamente comprometida.

  • Se ser humano significa relacionar-se com o próprio ser e conferir sentido à facticidade, a depressão grave parece ameaçar precisamente essa estrutura.
  • Surge então a questão de saber se a capacidade de transcendência permanece efetivamente disponível nos casos mais severos.

8. A pessoa deprimida pode reconhecer abstratamente a possibilidade de pedir ajuda e até imaginar uma conversa, mas permanecer incapaz de realizar o gesto corporal mínimo necessário para alcançar um telefone, mostrando a ruptura entre compreensão cognitiva e capacidade efetiva de agir.

9. A concepção heideggeriana parece pressupor que, mesmo diante de intenso sofrimento psíquico, sempre permanece alguma capacidade de refletir, interpretar e agir, mas a depressão grave põe em dúvida essa pressuposição justamente porque compromete os atos de escolha e significação.

10. Atividades elementares como levantar-se, tomar banho ou organizar os passos necessários para uma ação simples podem tornar-se empreendimentos quase impossíveis, evidenciando uma perda da capacidade prática e interpretativa.

11. A depressão pode problematizar até mesmo a ideia do suicídio como escolha livre, porque esse ato exige planejamento, energia e decisão, capacidades que podem estar profundamente reduzidas.

  • O sofrimento pode tornar-se tão incapacitante que até imaginar ou executar o suicídio parece excessivamente difícil.
  • Essa situação constitui uma das ironias mais cruéis da depressão grave.

12. Em estados vegetativos profundos, podem desaparecer esperança e sentido de futuro, restando um presente dominado quase exclusivamente pelo registro passivo do sofrimento e por extrema paralisia corporal.

13. Esses relatos sugerem que a capacidade estrutural de transcendência do Dasein pode ser menos constante do que supõe Heidegger, problema que se torna ainda mais claro quando se considera a temporalidade da depressão.

14. Para Heidegger, o Dasein é temporalidade, estendendo-se do presente ao passado e ao futuro, pois já se encontra lançado numa situação facticial e simultaneamente se projeta em possibilidades futuras.

  • A existência possui orientação fundamentalmente futura.
  • O ser humano permanece sempre ainda-não e a caminho de possibilidades.
  • Projetos, carreiras e relações futuras participam da constituição da identidade.
  • Na depressão, essa coesão temporal pode se romper.
  • O desaparecimento da futuridade significa contração do horizonte temporal e aprisionamento no presente.

15. Na experiência depressiva, passado e futuro podem ser absorvidos pelo presente, tornando difícil recordar claramente um período de melhora ou imaginar um futuro diferente, de modo que a depressão assume caráter atemporal e elimina pontos de vista alternativos.

16. Na névoa depressiva, o passado deixa de ressoar com significado e o futuro deixa de oferecer esperança, projetos ou modos possíveis de vida, restando apenas a paralisia desorganizada do presente.

17. Compreender a existência temporalmente mostra que o mundo não é apenas cenário significativo da vida cotidiana, mas espaço aberto de possibilidades, e a depressão pode fazer esse espaço contrair-se até impedir novas autointerpretações.

  • Torna-se difícil imaginar outras identidades ou perspectivas futuras.
  • Possibilidades concretas como mudar de cidade, constituir família, casar-se, voltar a estudar ou mudar de profissão podem perder totalmente o sentido.
  • A liberdade de refazer a própria vida torna-se inoperante quando nenhuma possibilidade aparece como significativa.

18. A depressão revela um limite da concepção heideggeriana do Dasein ao mostrar que a ideia do ser humano como agente permanentemente autoconstituinte pode ser excessivamente reificada, pois o colapso depressivo pode fechar o horizonte temporal e enfraquecer radicalmente a capacidade de tomar decisões voltadas ao futuro.

  • A liberdade autoconstitutiva pode ser reduzida a tal ponto que a pessoa perde a capacidade prática de existir como agente.
  • A análise heideggeriana conserva, entretanto, valor justamente porque ajuda a tornar visível a profundidade dessa perda.
  • Nos estados mais graves, a pessoa pode aproximar-se de uma existência automatizada, na qual a possibilidade de escolhas definidoras de si fica quase inteiramente suspensa.

19. A reflexão fenomenológica procura suprir aquilo que frequentemente falta nos debates médicos sobre depressão: uma descrição do que significa e de como é vivida por quem efetivamente sofre, em contraste com discussões centradas quase exclusivamente na questão de sua natureza bioquímica.

  • Debates sobre prescrição, diagnóstico infantil, marketing farmacêutico e relação entre indústria e profissionais de saúde permanecem importantes, mas não alcançam diretamente a experiência vivida.
  • A fenomenologia desloca o foco para aquilo que se manifesta na própria vivência depressiva.

20. A virtude da abordagem fenomenológica consiste em suspender inicialmente juízos científicos e morais acerca daquilo que a depressão é ou de como deveria ser tratada, permitindo que a experiência se revele em seus próprios termos.

  • A crítica à medicalização não autoriza reduzir a depressão grave a tristeza cotidiana.
  • A incapacidade física de mover-se, as experiências de irrealidade e a perda da capacidade de interpretar e conferir sentido à própria vida indicam uma ruptura muito mais profunda.
  • A fenomenologia pode ajudar quem sofre a reconhecer que sua experiência não é isolada.
  • Também pode tornar familiares, amigos e críticos da psiquiatria mais sensíveis ao sofrimento ao possibilitar a compreensão do mundo a partir da perspectiva da pessoa deprimida.
estudos/aho/2019/1.2.txt · Last modified: by 127.0.0.1