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estudos:agamben:vida-nua-1996

FORMA DE VIDA (1996:C1)

I. Homo sacer. Il potere sovrano e la nuda vita, 1995 / Homo Sacer. O poder soberano e a vida nua. Tr. Henrique Burigo. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2007

Com o termo forma-de-vida entendemos, ao contrário, uma vida que jamais pode ser separada da sua forma, uma vida na qual jamais é possível isolar alguma coisa como uma vida nua.

  • Os gregos não dispunham de termo único para exprimir o que modernamente se entende por vida, servindo-se de dois termos distintos, zoé para o simples fato de viver comum a todos os viventes e bios para a forma ou maneira de viver própria de um indivíduo ou grupo, enquanto nas línguas modernas a oposição desaparece e um único termo designa o nu pressuposto comum isolável em cada forma de vida
    • zoé manifestava o simples fato de viver, comum a animais, homens e deuses
    • bios significava a forma ou maneira de viver própria de um indivíduo ou grupo
    • nas línguas modernas a oposição desaparece gradualmente do léxico
    • onde conservada em biologia e zoologia não indica diferença substancial
    • um único termo designa o nu pressuposto comum isolável em cada forma de vida
    • a opacidade do termo cresce proporcionalmente à sacralização de seu referente
    • forma‑de‑vida entende‑se como vida que jamais pode ser separada da sua forma, na qual jamais é possível isolar algo como vida nua
  • Uma vida inseparável da sua forma é aquela para a qual, no seu modo de viver, está em jogo o próprio viver e, no seu viver, está em jogo antes de tudo o seu modo de viver, definindo a vida humana como vida em que modos singulares, atos e processos do viver nunca são simplesmente fatos, mas sempre e primeiramente possibilidade de vida e potência, conservando sempre o caráter de possibilidade e colocando sempre em jogo o próprio viver
    • comportamentos e formas do viver humano nunca são prescritos por vocação biológica específica nem atribuídos por necessidade qualquer
    • por mais ordinários, repetidos e socialmente obrigatórios, conservam sempre o caráter de possibilidade
    • o homem é o único ser em cujo viver está sempre em jogo a felicidade, irremediavelmente destinado à felicidade
    • tal constitui imediatamente a forma‑de‑vida como vida política
    • Marsílio de Pádua define a cidade como comunidade instituída para que os homens vivam juntos e bem
  • O poder político conhecido funda‑se sempre, em última instância, na separação de uma esfera da vida nua do contexto das formas de vida, sendo que no direito romano vida não é conceito jurídico exceto na expressão vitae necisque potestas, onde vida é corolário do poder de matar, e o mesmo vale para o poder soberano, cuja fundação hobbesiana define a vida no estado de natureza pela exposição incondicionada à ameaça de morte e a vida política como essa mesma vida exposta à ameaça depositada nas mãos do soberano
    • vida no direito romano não é conceito jurídico, mas indica simples fato de viver ou modo particular de vida
    • única exceção é vitae necisque potestas, poder de vida e morte do pater sobre o filho homem
    • Yan Thomas demonstrou que na fórmula vida não é senão corolário de nex, do poder de matar
    • fórmula não tem valor disjuntivo
    • poder de vida e morte do pater é célula originária do poder soberano (imperium)
    • na fundação hobbesiana a vida no estado de natureza é definida pela exposição incondicionada à ameaça de morte
    • direito ilimitado de todos sobre tudo caracteriza o estado de natureza
    • vida política sob o Leviatã é a mesma vida exposta à ameaça nas mãos do soberano
    • puissance absolue et perpetuelle define o poder estatal e funda‑se na vida nua conservada e protegida apenas na medida em que se submete ao direito de vida e morte do soberano ou da lei
    • este é o significado originário do adjetivo sacer referido à vida humana
    • estado de exceção é aquele no qual a vida nua, normalmente reunida às formas de vida social, é explicitamente colocada em questão como fundamento último do poder político
    • sujeito último a excetuar e incluir na cidade é sempre a vida nua
  • O diagnóstico de Benjamin de que o estado de exceção se tornou regra não perdeu atualidade, não apenas porque o poder se legitima unicamente pela emergência e trabalha secretamente para produzi‑la, mas sobretudo porque a vida nua, fundamento oculto da soberania, tornou‑se por toda parte a forma de vida dominante, separando em todos os âmbitos as formas de vida de sua coesão em uma forma‑de‑vida
    • poder não tem hoje outra forma de legitimação que não seja a emergência
    • poder faz apelo contínuo à emergência e trabalha secretamente para produzi‑la
    • vida nua, fundamento oculto da soberania, tornou‑se a forma de vida dominante
    • no estado de exceção tornado normal, a vida nua separa em todos os âmbitos as formas de vida de sua coesão em uma forma‑de‑vida
    • à cisão marxiana entre homem e cidadão sucede a cisão entre vida nua, portadora última da soberania, e múltiplas formas de vida abstratamente recodificadas em pessoas jurídico‑sociais
    • tais formas de vida repousam todas na vida nua
    • permutar essa vida nua separada de sua forma por soberania ou sagrado constitui o limite do pensamento de Bataille, tornado inservível
  • A tese de Foucault de que a política se tornou biopolítica por estar a vida em jogo é substancialmente exata, mas decisivo é como se entende essa transformação, permanecendo não interrogado nos debates atuais sobre bioética e biopolítica o próprio conceito biológico de vida, do qual participam tanto o modelo da experimental life do cientista que faz da própria vida laboratório de experimentação ilimitada quanto o modelo que, em nome da sacralidade da vida, exaspera a antinomia entre ética individual e tecno‑ciência
    • aquilo que resta não interrogado é o próprio conceito biológico de vida
    • os dois modelos contrapostos por Rabinow participam ambos do mesmo conceito de vida nua
    • o conceito biológico de vida é na realidade um conceito político secularizado
    • do ponto de vista estritamente científico, segundo Medawar, o conceito de vida não tem significado intrínseco
    • discussões sobre o significado real das palavras vida e morte são índice de conversa de baixo nível em biologia
    • da secularização do conceito deriva a função da ideologia médico‑científica no sistema do poder
    • há uso crescente de pseudoconceitos científicos para controle político
    • a operação da vida nua, que o soberano podia atuar sobre as formas de vida, é agora maciça e cotidianamente atuada por representações pseudocientíficas do corpo, doença, saúde e pela medicalização de esferas cada vez mais amplas da vida e da imaginação
    • vida biológica, forma secularizada da vida nua, constitui as formas de vida reais em formas de sobrevivência
    • vida biológica permanece intocada como obscura ameaça atualizável na violência, estranheza, doença e acidente
    • vida biológica é o soberano invisível que governa por trás das máscaras dos poderosos
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