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EROS – HERÓI – DEMÔNIO (E:198-202)
AGAMBEN, Giorgio. Estâncias - a palavra e o fantasma na cultura ocidental. Tr. Selvino José Assmann. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2007, p. 198-202
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A identificação progressiva entre o “demônio aéreo” de Epinomis, de Calcídio e de Pselo e o “herói” ressuscitado pelos antigos cultos populares manifesta-se já na tradição atribuída por Diógenes Laércio a Pitágoras, segundo a qual os heróis habitam no ar e agem sobre os homens inspirando sinais premonitórios de doença e de saúde, apresentando assim todos os traços da demonicidade aérea, identificação reforçada por uma etimologia de provável origem estoica retomada pelos Padres da Igreja a partir de Agostinho, que no livro X do De civitate Dei, ao refutar a teurgia neoplatônica, define os mártires cristãos como “nostros heroas” e acrescenta que o nome heros teria sido tirado de Hera, significando misticamente que o ar onde os heróis habitam com os demônios estaria sob a potestade de Juno, embora os mártires devessem ser chamados “heróis” não por qualquer associação com demônios, mas porque vencem as potências aéreas
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tradição pitagórica segundo Diógenes Laércio
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heróis como habitantes do ar e agentes premonitórios
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etimologia estoica retomada por Agostinho
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crítica agostiniana da teurgia neoplatônica
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redefinição cristã do herói como vencedor das potências aéreas
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O tríplice patrimônio semântico Eros — herói — demônio aéreo, fundindo-se com a antiga teoria médica que via no amor uma doença, conforme testemunhos de Plutarco e de Apuleio, desemboca na imagem demoníaca e sinistra de um Eros descrito por Plutarco como pequeno monstro com dentes caninos e garras, formando no âmbito da tradição neoplatônica uma figura “baixa” de Eros-herói-aéreo que insidia os homens com paixões insanas, figura ligada tanto à antiga crença hipocrática que atribuía aos heróis a causa de enfermidades mentais quanto à interpretação do amor hereos como amor heroycus, não como amor elevado, mas como amor obscuro inspirado pelo herói-demônio aéreo, em analogia com a teoria humoral da melancolia associada ao demônio meridiano, reencarnação de Empusa do cortejo de Hécate, causa de pesadelos e distúrbios mentais segundo Hipócrates
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Plutarco sobre o amor como doença ou loucura
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Apuleio e o amor como enfermidade corporal
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Eros com caninos e garras
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amor hereos como patologia demoníaca
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relação com melancolia e demônio meridiano
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A figura heroico-demoníaca de Eros com caninos e garras fornece o modelo iconográfico do Cupido “baixo e mitográfico” que Erwin Panofsky identifica na alegoria da castidade de Giotto e no afresco do castelo de Sabbionara, reconstruindo seu protótipo a partir dos Documenti d’amore de Francesco da Barberino, nos quais Amor aparece com garras e arco em pé sobre um cavalo a galope, tipo iconográfico que Panofsky supõe anterior ao século XIII, mas cuja origem deve ser buscada na Antiguidade tardia, na teurgia neoplatônica e em passagem de Proclo que descreve a invocação na qual surge “um menino ardente que cavalga o veloz dorso de um cavalo, coberto de ouro ou então nu, ou então com o arco em mão e em pé sobre o dorso”, sugerindo uma possível vinculação entre teoria do amor e teurgia ídolo-poiética neoplatônica e iluminando o caráter idolátrico do amor como processo fantasmático na cultura medieval, testemunhado tanto pelas referências poéticas a Narciso e a Pigmaleão quanto por representações de amantes como idólatras
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Panofsky e a iconologia do Cupido com garras
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Giotto e o castelo de Sabbionara
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Francesco da Barberino e os Documenti d’amore
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Proclo e a visão do menino ardente sobre o cavalo
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idolatria amorosa e processo fantasmático
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As características obscuras e demoníacas do amor revelam que a teoria do amor constitui uma polarização audaz entre amor heroico-demoníaco e amor-enfermidade, cuja compreensão permite avaliar o caráter revolucionário de uma concepção que permanece substancialmente atual em suas ambiguidades, sendo a proximidade com a experiência mórbida e demoníaca da imaginação que explica a descoberta medieval do caráter fantasmático do processo amoroso, obscurecido na tradição clássica, ao passo que a pressuposição de um modelo elevado, como a mística cristã platonizante ou a teoria platônica do amor celeste, impede a inteligência do que há de específico na experiência poética, sem que se ignore a polaridade positiva já contida na tradição cultural que formou a imagem “baixa” de Eros, desde a teurgia neoplatônica até a pneuma-fantasmologia, cuja contribuição para a soteriologia amorosa e para a revalorização do “espírito fantástico” no encontro entre platonismo e cristianismo influenciou decisivamente a revalorização poética do amor
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polarização entre amor demoníaco e amor salvífico
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descoberta medieval do fantasmático
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crítica ao modelo elevado exclusivo
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contribuição da teurgia e da pneuma-fantasmologia
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encontro entre platonismo e cristianismo
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A polarização positiva de Eros coincide, nos poetas, com a exasperação de seu caráter fantasmático, pois enquanto os médicos recomendam como remédio do amor hereos o coito e tudo o que dissipe a “falsa imaginação”, o amor poético permanece rigorosamente no interior do círculo fantasmático, configurando-se como “enfermidade mortal” da imaginação que deve ser atravessada até o fim, sem iludi-la nem superá-la, por encerrar simultaneamente risco letal e possibilidade extrema de salvação, de modo que Narciso e Pigmaleão figuram como emblemas extremos de uma experiência espiritual cujo problema crucial pode ser formulado como a questão de como curar do amor hereos sem transgredir o círculo fantasmático
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oposição entre medicina e poesia
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amor como enfermidade mortal da imaginação
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risco e salvação no fantasmático
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Narciso e Pigmaleão como emblemas
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questão da cura sem ruptura do círculo fantasmático
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