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estudos:abbagnano:filosofia-positiva

Existencialismo, filosofia positiva (1948)

ABBAGNANO, Nicola. Scritti esistenzialisti. Torino: DEAGOSTINI LIBRI, 2013.

O EXISTENCIALISMO É UMA FILOSOFIA POSITIVA

1. O percurso compreende a filosofia como problema, a problematicidade da filosofia, a filosofia como existência, a filosofia que não é contemplação, problematicidade e problemas, a realidade como possibilidade, os filósofos da possibilidade, Kant e Kierkegaard, a equivalência das possibilidades no existencialismo negativo, a possibilidade transcendental, a liberdade, o tempo e a história.

1. A filosofia como problema.

2. Pergunta-se se o existencialismo tem uma característica própria diante da filosofia tradicional e se ela justifica o interesse que desperta fora do círculo dos filósofos e sua pretensão de impregnar a literatura, a arte e a cultura contemporânea em geral.

3. Sempre houve um problema da filosofia, que nunca pôde pressupor sua natureza, método e objetos e sempre teve de começar por definir-se, mas raramente conseguiu justificar seu problema, que apareceu antes como estado provisório de incerteza e dúvida dos inícios, a ser eliminado por seus avanços, pretendendo a filosofia explicar e justificar todos os aspectos da realidade, o homem, o mundo e Deus, mas esquecendo na maioria das vezes de explicar o que mais de perto lhe concerne, seu próprio problema, com a incerteza, instabilidade e dúvida que acompanham seus inícios, progressos e conclusões e voltam a pôr como problema cada resultado mais certo.

4. O existencialismo nasce da alternativa entre considerar fora da filosofia o destino de ter de lutar incessantemente por sua vida, dar-se uma figura e defendê-la, ou fazer dele sua alma e vida, rompendo definitivamente com a ingenuidade filosófica e tornando impossíveis sistemas que ignoram essa alternativa, como Hegel, que, ao afirmar a identidade intrínseca e necessária entre real e racional, tira o fundamento à própria filosofia, pois essa identidade impediria o problema de nascer, e o ceticismo, que, afirmando a equivalência de todas as visões do mundo, torna sem sentido demonstrá-la e justifica de antemão toda escolha, devendo-se perguntar de toda filosofia se seu conceito de realidade torna possível o problema de onde nasce, sob pena de vacuidade total, e sendo característica fundamental do existencialismo exigir que a filosofia chegue a justificar seu próprio problema e demonstrar sua possibilidade intrínseca.

2. Problematicidade da filosofia.

5. Dessa característica decorrem natureza e método do existencialismo, cujo primeiro problema é o da forma problemática da filosofia, pergunta sobre por que a filosofia é sempre problema para si que é ao mesmo tempo resposta e definição, significando que a filosofia é essencialmente seu próprio problema e que sua forma problemática não é aparência nem provisoriedade, mas substância, e, sendo um problema um estado de indeterminação em que possibilidades contrastantes se equilibram, sua solução é a escolha da possibilidade que o justifica e torna possível, desde que se abandone o preconceito de que resolver é eliminar, pois um problema resolvido é justificado como problema, fundado e autenticado pela solução, enquanto os insolúveis por constituição não são problemas, mas quebra-cabeças, alegria e tormento dos diletantes, e na ciência o problema resolvido reaparece incessantemente em suas ramificações e na matemática é verdadeiro problema quando resolvido e aplicável a outros problemas, de modo que a solução é a demonstração da possibilidade do problema, que o funda e justifica.

6. A forma problemática da filosofia não implica deixar em suspenso a solução de seu problema nem oscilar continuamente entre soluções possíveis, mas apenas que a solução, qualquer que seja, justifique a possibilidade do problema, o que basta para esclarecer o sujeito, o objeto e o método da filosofia.

3. A filosofia como existência.

7. Por sua natureza problemática, a filosofia não é nem pode ser saber divino do mundo, posse firme, definitiva e total de todo saber possível, nem posse de qualquer saber, mas problema do saber que renasce continuamente de suas soluções, devendo-se rejeitar como ilusória toda filosofia divinizante, que se considera atividade de um intelecto puro, razão absoluta ou intuição intelectual, por tornar impossível o problema da filosofia, sem com isso cair no abismo do irracional, pois pode-se continuar a dizer que a filosofia é razão ou pensamento, desde que problemático, oposto à necessidade da razão absoluta, cujo saber necessário é cadeia imutável de determinações universais dominável com um só olhar, que exclui todo problema, enquanto o saber problemático exclui a necessidade, inclui indeterminação, dúvida, decisão e escolha e tem como norma e categoria suprema a possibilidade.

8. Um saber problemático é saber possível que implica a possibilidade do não saber, acompanhado incessantemente pela dúvida, reconhecimento da possibilidade negativa implícita em todo saber positivo, a do erro, da perda e do extravio, e, se o saber necessário define a vida pensante de um ser infinito, o problemático define a de um ser finito, não significando aqui finitude senão problematicidade de um saber que é sempre possibilidade do não-saber.

9. O homem é o único ser pensante finito, e o saber problemático constitui sua condição e modo de ser, a existência, revelando-se aqui o traço de que o existencialismo tira o nome, a identidade entre existência e filosofia, não nova, pois a filosofia sempre foi esforço do homem para esclarecer o próprio ser, mas nem sempre problema explícito, faltando então o esclarecimento fundamental de que o homem é problema para si, significado último do reconhecimento da filosofia como saber problemático do ente finito, ligada imediatamente à constituição do homem, cuja natureza não é estado imóvel, realidade objetiva nem subjetividade universal, mas apenas a originária e transcendental problematicidade de seus problemas.

10. A filosofia, considerada de início em sentido restrito e técnico, revela-se ligada íntima e essencialmente à existência, não nascendo de curiosidade gratuita, mas de um movimento vital pelo qual o homem, na instabilidade de sua natureza problemática, busca o ser próprio e se esforça por possuí-lo, garantindo-se assim a seriedade e o valor da investigação filosófica, que não é luxo supérfluo, mas constituição intrínseca da existência, e a elaboração técnica, construção de uma linguagem que exprima com rigor o filosofar autêntico que é a existência, ganha novo significado, pois a impaciência com a chamada abstrusidade da técnica filosófica desaparece ao reconhecer-se que nela buscam expressão e sistematização lógico-linguística as experiências e atitudes fundamentais do homem, interessando o trabalho dos filósofos a todos os homens, razão pela qual o existencialismo, apesar de técnica rigorosa e difícil, tende a ultrapassar o círculo dos filósofos e a impregnar a cultura contemporânea.

4. A filosofia não é contemplação.

11. O reconhecimento da natureza problemática da filosofia determina seu sujeito, o homem, e coloca a questão de seu objeto, isto é, daquilo que se opõe à atividade que o investiga e dá validade a toda forma de conhecimento, perguntando-se se a filosofia é redutível a conhecimento, o que depende de julgar possível ou impossível que o homem seja ou se torne espectador desinteressado de si.

12. O ideal de um conhecimento desinteressado de si e da filosofia como ciência rigorosa de significados objetivos caracteriza correntes contemporâneas, sobretudo a fenomenologia, mas constitui grave derrogação à estrutura problemática da filosofia, pois, admitindo que o homem possa ser espectador desinteressado de si, trata-se de uma possibilidade constitutiva de sua condição problemática, posta em ato por decisão e escolha, e essa constituição problemática, com suas possibilidades, escolhas e decisões, fica inteiramente fora de uma filosofia como ciência, por não se reduzir a significados objetivos, de modo que esse ideal, mesmo na forma crítica da fenomenologia, exclui o ato originário, o problema dessa própria filosofia, manifestando ingenuidade e incapacidade de possuir-se criticamente.

13. A filosofia não pode fundar-se na ilusão de tornar o homem espectador desinteressado de si, pois todo esclarecimento que ele alcança, ou julga alcançar, sobre si entra a constituir e modificar sua existência, de modo que a filosofia não tem objeto em sentido próprio, mas uma tarefa, empenhar o homem na forma de ser que julga própria, sem ser por isso mais prática que teórica, pois teoria e prática, ação e especulação, são classificações convencionais e inúteis para ela, que concerne sempre ao homem em sua totalidade, em seu ser problemático, e o empenha inteiramente na atitude que lhe permite escolher.

5. Problematicidade e problemas.

14. Negar que a filosofia seja conhecimento desinteressado não significa negar que tal conhecimento seja possível ao homem, mas apenas que, se possível, não é filosofia, e ele existe, sendo a ciência natural.

15. A atitude na base da ciência é aquela pela qual o homem é apenas um dos objetos possíveis da consideração científica, sem privilégio, submetido aos mesmos procedimentos de observação e medida, corpo sujeito às leis físicas, organismo vivo sujeito às leis da vida orgânica, centro de ações e reações psicofísicas semelhante aos outros animais, apenas mais complexo, pois a ciência é em geral consideração do mundo e o homem nela vale como parte ou elemento dele, condicionando-se o conhecimento desinteressado por uma possibilidade da existência, a atitude pela qual o homem se considera parte de uma totalidade que o compreende.

16. Pergunta-se até que ponto essa atitude se liga à existência humana, questão de que depende o valor humano da ciência, e a resposta vem da constituição problemática do homem, que existe como problematicidade de seus problemas, mas é imediatamente incluído neles como um de seus termos, tendo todo problema uma dupla face, modo de ser particular do homem e relação indeterminada entre termos possíveis que o inclui, como o problema científico, que é a vida do cientista apaixonado por ele e relação de termos objetivos em que o próprio cientista e todo homem podem entrar como corpo ou organismo, dupla dimensão expressa pela distinção entre problematicidade e problema, sendo a problematicidade, condição do problema, a possibilidade transcendental de todo problema possível.

17. O homem só é problematicidade no ato em que os problemas nela enraizados o incluem como um de seus termos, o que liga essencialmente à existência o conhecimento científico e o comum que o prepara, sendo quimérica a pretensão de dispensar a ciência, mero apego a forma mais rudimentar e menos eficaz de conhecimento, e implica que o homem só se reconhece em sua natureza original diante dos outros seres reconhecendo-se ao mesmo tempo ser ou coisa do mundo, sendo a relação com o mundo tão essencial quanto a relação consigo e a exterioridade tão constitutiva quanto a interioridade, aspecto da finitude pelo qual o homem é parte e não todo e depende do todo, dependência real mesmo antes de reconhecida, manifesta na corporeidade e nas necessidades que o ligam ao mundo, diante da qual a filosofia não pode fechar os olhos, insistindo apenas na interioridade e espiritualidade sem reconhecer a exterioridade e corporeidade que fazem dele um ser entre seres e uma coisa entre coisas, pois a ilusão de exaltá-lo o diminui, reduzindo-o a um só aspecto de sua estrutura.

6. A realidade como possibilidade.

18. Os resultados podem ser recapitulados: a forma problemática da filosofia é substância e não aparência; a filosofia é saber problemático que define o modo de ser de um ente finito, o homem, a existência; não pode ser autocontemplação desinteressada, nem conhecimento nem ciência; conhecimento e ciência nascem com a filosofia, pois a problematicidade inclui o homem nos termos de seus problemas; pontos que excluem toda filosofia divinizante, emanação de um Espírito ou Razão absoluta, o positivismo e a fenomenologia, por aceitarem o ideal da filosofia como disciplina lógico-contemplativa, e todo espiritualismo que se apoie apenas na interioridade, pela unidade, na natureza problemática do homem, entre relação consigo e relação com o mundo.

19. Essas determinações e exclusões encaminham a uma orientação positiva da filosofia existencial, que rompe o quadro da necessidade das filosofias dogmáticas e move-se no horizonte das possibilidades, pois, do ponto de vista de uma razão problemática, não se vê no homem nem em nenhuma realidade em relação com ele natureza necessitante, dado imutável ou lei determinante, mas apenas possibilidades individuadas diante das quais ele é chamado incessantemente a decidir e escolher, sem encontrar dentro ou fora de si nada mais estável que a possibilidade: seu próprio eu, unidade possível de suas atitudes interiores, os outros homens, possibilidades de trabalho, solidariedade, amizade e amor, as coisas, possibilidades de utilização, as obras de arte, que se tornam tela ou pedra sem o gosto que as aprecie, e os documentos da história, mudos sem quem os entenda como testemunhos.

20. Sob esse aspecto a distância entre animais e homem é radical, pois no animal o instinto é impulso necessitante sem exceções, bloqueável apenas por instinto mais forte, enquanto no homem até os chamados instintos são possibilidades sobre as quais decide, não havendo instinto tão poderoso que ele não possa calar ou contrariar, e suas próprias aberrações revelam seu caráter de meras possibilidades que oferecem alternativa de escolha.

21. Que o homem não possa agarrar-se a nada estável e definitivo e deva lutar, decidir e escolher incessantemente, a seu risco e sob sua responsabilidade, é a perspectiva mais inquietante já aberta aos homens, que naturalmente resistem e tentam escondê-la, mas a filosofia não pode embalar o homem com ilusões e consolos fictícios, devendo despertá-lo quando adormece numa segurança ilusória e empenhá-lo na vigilância, na luta e no trabalho, cabendo-lhe esclarecer que guia ou orientação essa perspectiva oferece, para o que servem de ensinamento eficaz Kant e Kierkegaard.

7. Os filósofos da possibilidade: Kant e Kierkegaard.

22. Kant é o filósofo da possibilidade positiva, pois, enquanto o iluminismo alemão desde Wolff usava o método da razão fundante, apresentando como fundamento de um conceito sua possibilidade entendida logicamente como ausência de contradição, Kant levou pela primeira vez a possibilidade ao plano da experiência humana concreta, carregando-a de significado existencial, reconhecendo nas formas a priori a possibilidade da experiência, no caráter formal do imperativo categórico a possibilidade da pessoa moral e de uma comunidade de pessoas, e no sentimento estético a possibilidade de transformar a dependência do homem em relação à natureza em liberdade diante dela, exprimindo e fundando todo o mundo humano em termos de possibilidades transcendentais, condicionantes e fundantes, e delimitando as possibilidades autênticas em face das fictícias, daí o caráter crítico e limitativo de sua obra, polêmica contínua contra o dogmatismo teórico e o fanatismo moral.

23. Em Kant a possibilidade apresenta apenas sua face positiva, mas toda possibilidade concreta tem também a negativa, sendo sempre possibilidade-de-não além de possibilidade-de-sim, como a possibilidade de conhecer é também possibilidade de dúvida, erro e esquecimento, aspecto que em Kant fica na sombra, embora vislumbrado na doutrina do mal radical, e que é cruamente iluminado por Kierkegaard.

24. Kierkegaard é o filósofo da possibilidade negativa, para quem a angústia é o sentimento do possível em sua força aniquiladora e destrutiva, paralisante, e o discípulo do possível é quem vive sob a ameaça das alternativas terríveis de toda possibilidade concreta, tendo realizado com toda força o sentido da problematicidade da existência, mas vivida apenas em seu lado negativo, como angústia e desespero paralisante.

25. Entre Kant e Kierkegaard não há alternativa nem escolha, mas complementaridade, pois a possibilidade constitutiva da existência, esclarecida por Kant em seu aspecto positivo, foi esclarecida por Kierkegaard no negativo, indissoluvelmente ligado a ele, e uma filosofia da existência que não queira ser unilateral nem reduzir a existência a fragmento deve reconduzir incessantemente Kant a Kierkegaard e Kierkegaard a Kant, única via para encontrar na estrutura problemática da existência sua norma e guia.

8. A equivalência das possibilidades: o existencialismo negativo.

26. O problema central e único verdadeiro da filosofia da existência é, dada a instabilidade radical do homem, que só vê em si e fora de si meras possibilidades, cada uma com ameaça e risco, saber como escolher e orientar-se, como reconhecer as possibilidades próprias e as fictícias e como consolidar e garantir as primeiras.

27. A primeira resposta, do último existencialismo francês, Sartre e Camus, reconhece a equivalência absoluta de todas as possibilidades, justificando toda escolha como escolha e fazendo o homem livre, isto é, indiferente, diante delas, resposta óbvia, mas paralisante, pois uma escolha não sustentada pela fé no valor do que se escolhe é impossível e o reconhecimento da equivalência já é renúncia à escolha, equivalendo à anulação de todas as possibilidades e à negação da existência.

28. A segunda resposta, de Heidegger, reconhece a equivalência de todas as possibilidades menos uma, a que resume a nulidade possível de todas, a morte, sendo a única escolha autêntica viver para a morte e as demais fictícias, passo adiante em relação à primeira por implicar possibilidade de escolha, mas que é na verdade necessidade, pois a escolha possível é uma só, invertendo a problematicidade em necessidade e fazendo da única possibilidade autêntica de existir a impossibilidade de existir, negando a existência como possibilidade no próprio ato de reconhecê-la.

29. A terceira resposta, de Jaspers, afirma que todas as possibilidades se equivalem por sua comum impossibilidade de ser mais que possibilidades e de ligar-se ao ser além delas, a Transcendência, simétrica e oposta à de Heidegger, mas com a mesma conclusão, pois para Heidegger a existência é impossibilidade de emergir do nada e para Jaspers impossibilidade de ser o Ser e alcançar a transcendência, reconduzindo ambas a existência a uma impossibilidade fundamental e negando sua problematicidade, que a faz viver e constituir-se por possibilidades concretas.

30. Esses rumos ensinam que a equivalência das possibilidades existenciais, seu pressuposto comum, leva à negação da existência como possibilidade, pois, se todas se equivalem, a existência é impossível, mostrando a importância da consideração do valor e da normatividade, negligenciada por eles, sem a qual a problematicidade se torna necessidade e a possibilidade impossibilidade, negando-se a existência no próprio ato de reconhecer-se, e a esse existencialismo negativo, que nega não crenças ou valores exteriores, mas o próprio princípio de onde parte, a existência, contrapõe-se uma orientação positiva que justifique o reconhecimento e a manutenção da existência em sua problematicidade fundamental e deixe abertas as possibilidades em que se constitui, reconduzindo Kierkegaard, filósofo da possibilidade impossível, a Kant e aos filósofos que trabalharam para garantir ao homem a posse legítima de seus próprios limites.

9. A possibilidade transcendental.

31. É preciso distinguir o reconhecimento de que a existência é constituída por possibilidades da afirmação de que todas têm o mesmo valor, que não deriva daquele, mas as possibilidades existenciais também não podem ser avaliadas por critério extrínseco, norma ou realidade alheia a elas, pois nada há dentro ou fora do homem que não seja possibilidade concreta e vivida, devendo as próprias possibilidades conter o critério e a medida de seu valor.

32. A questão é decisiva, pois sem esse critério não haveria empenho nem fé na existência, que são o reconhecimento efetivo e operante do valor da possibilidade em que o homem se reconhece, e sem ele, ou com a igualdade de valor de todas, restaria ao homem lançar-se ao acaso numa direção ou noutra, sem seriedade, fé nem razão, coincidindo aqui o problema da fé na existência e o da razão como guia, e, embora se devesse proclamar a verdade se assim fosse, há motivos para reconhecer que o homem tem nas próprias possibilidades a norma de sua avaliação.

33. O caráter fundamental de uma possibilidade existencial é ser autêntica, pois uma possibilidade brilhante que, escolhida, se dissolve ou se inverte, negando o que prometia, não é autêntica, mas impossibilidade, enquanto aquela que, escolhida, se consolida como possibilidade e torna sempre de novo possível sua escolha é autêntica e apresenta-se com caráter normativo que torna obrigatória a escolha, sendo a possibilidade da possibilidade critério e norma de toda possibilidade, a possibilidade transcendental, que justifica e funda toda atitude, escolha e decisão, pois uma escolha não se justifica por ter sido feita, mas por ainda ser possível fazê-la, uma decisão não vale por ter sido tomada, mas por poder ainda ser tomada e realizada, e uma atitude tira seu valor da possibilidade de que sua assunção não a torne intrinsecamente impossível.

34. Toda atitude, escolha ou decisão não se esgota no singular que a assume, pois pensamentos, sentimentos e ações concernem aos outros tanto quanto a ele, e ao fazer sua uma possibilidade o singular decide também de suas relações com os outros, como na escolha de uma profissão ou trabalho, que o insere numa rede complexa de solidariedades, interesses, inimizades, amizades, hierarquias e subordinações, podendo ser assumida de muitos modos que colorem a personalidade e as relações, e o critério da possibilidade transcendental indica que a tarefa escolhida para tornar possíveis a unidade e o equilíbrio do eu não é a verdadeira se as torna impossíveis, nem é verdadeira se nega a possibilidade das relações com os outros que tende a estabelecer, tendo assim toda atitude em si a norma de sua própria possibilidade, inerente e não externa, que não a imobiliza em realidade, dado ou necessidade, mas a mantém e consolida como possibilidade, podendo o homem, constituído apenas de possibilidades, encontrar e realizar seu equilíbrio justamente mantendo aberta sua instabilidade.

35. O homem pode, portanto deve, mas isso não significa que seja obrigado a fazê-lo nem que sempre consiga, pois nada lhe oferece garantia infalível, o erro é possível e corre por sua conta, mas pode, com esforço, pela dúvida, pelo erro e pela luta, alcançar uma fé razoável em si, na possibilidade que reconhece própria, e nos outros homens ligados a ele por essa possibilidade, fé razoável que constitui toda sua dignidade e valor de homem.

10. A liberdade.

36. A liberdade não é o caráter indiscriminado de toda escolha ou atitude, condição de nascença da qual não se possa decair, nem amor fati, aceitação pura do fato, escolha do já escolhido e decisão do já decidido por uma situação necessitante, sendo a liberdade como indiferença própria da orientação que afirma a igualdade de valor das possibilidades e a liberdade como coincidência com a necessidade própria das orientações que as reduzem a uma impossibilidade fundamental.

37. As possibilidades existenciais nunca se oferecem na indiferença, e entre as que de fato se pode escolher só uma é autêntica, a que não se resolve em impossibilidade, e deve ser escolhida por ser a única que garante a possibilidade da escolha, sendo só ela liberdade, ligada à possibilidade transcendental, de modo que nem toda escolha é livre, mas só a que inclui a garantia de sua possibilidade, pois o que se decidiu livremente pode continuar a ser decidido, enquanto a decisão errada se volta contra quem decidiu, fecha-o num beco sem saída e impossibilita toda relação consigo e com os outros, e a liberdade diante dos outros não é ausência de relações e isolamento, mas possibilidade da relação escolhida, sendo o isolamento, distinto da solidão, loucura, ou delinquência e aberração moral que, negando toda relação humana, confinam com ela, de modo que o homem só é livre entre e com os outros homens, desde que sua decisão inclua e garanta a possibilidade das relações com eles.

38. Um exemplo instrutivo é o do governo livre, discutido sobretudo após as tristes experiências recentes, cuja resposta óbvia, apoiada pelo jusnaturalismo, de ser o governo escolhido pelo povo, é insuficiente, pois um povo pode escolher e manter um governo não livre, sendo livre apenas o governo que garante ao povo a possibilidade da escolha, pois nem toda escolha é liberdade, mas só a que garante sua própria possibilidade.

39. O caminho da liberdade é o mais difícil, tomado em geral após muitas tentativas, extravios e erros, sendo mais fácil o da não-liberdade ou liberdade fictícia, que logo após a escolha se revela coerção insuportável e ruptura consigo e com os outros, e, se Spinoza disse que o homem livre nunca pensa na morte e Heidegger que a única liberdade possível é a liberdade para a morte, o homem livre não esquece a morte nem vive só para ela, reconhecendo-a como risco iminente sobre todo projeto, êxito e relação, não perdendo tempo no trabalho essencial e cuidando sobretudo do que mais ameaçado está, permanecendo fiel à morte por ser fiel ao caráter problemático da existência, sempre possibilidade de não-existência, mas nas obras e projetos concretos, no dever de consolidar incessantemente suas possibilidades e na recusa de julgá-las garantidas para sempre sem esforço.

11. O tempo.

40. O reconhecimento da problematicidade da existência implica o de sua temporalidade, e a filosofia da existência não cede à exigência ilusória de suprimir o tempo, própria de toda filosofia divinizante, que, pretendendo ser saber necessário do mundo, ignora ou nega o poder destrutivo do tempo e o reduz a determinações imutáveis, à eternidade, que é apenas o presente ou a contemporaneidade, ainda determinações do tempo, reduzindo-o assim a um de seus momentos.

41. A filosofia da existência parte do reconhecimento explícito da realidade do tempo e de seus aspectos antagônicos, nascimento e morte, conservação e destruição, imobilidade e mudança, desenvolvimento e decadência, dificilmente explicáveis por qualquer conceito do tempo, pois, se é ordem e permanência, não se explica seu poder destrutivo, e, se é desordem e destruição, não se explica a possibilidade de o homem subtrair-lhe o que lhe importa e fazer dele patrimônio de seu passado e história, e só a categoria existencial da possibilidade, sempre positiva e negativa, permite entendê-lo em todos os seus aspectos, sendo a temporalidade a instabilidade fundamental da possibilidade existencial, a ameaça de destruição a possibilidade de cada possibilidade perder-se e a de renovação e conservação a de cada uma consolidar-se, e o presente de uma possibilidade é perspectiva rumo ao futuro enraizada no passado, abertura ao vir-a-ser do possível e conexão possível com o que de algum modo já foi, ato que liga problematicamente o futuro ao passado.

42. Como projeto do futuro, toda possibilidade inclui o passado e realiza uma unidade entre ambos, o presente ou instante, mas a existência não pode ser entendida como sucessão de instantes, que implica substituição, substituibilidade e equivalência de valor, isto é, ausência do valor de que dependem preferência e escolha, podendo a existência rebaixar-se a sucessão insignificante de possibilidades que se sobrepõem e desaparecem sem deixar rastro quando decai de sua normatividade intrínseca, mas, quando se reconhece numa possibilidade válida e nela se consolida, sua temporalidade exprime-se na possibilidade de salvaguardar seus aspectos essenciais e conservar e renovar seu patrimônio, implicando a consideração do tempo a do valor, pois onde faltam empenho e fé a temporalidade aparece como sucessão e onde prevalecem revela-se possibilidade de enriquecimento e conservação e a ameaça do tempo como alternativa de êxito ou fracasso.

12. A história.

43. Nessa alternativa da temporalidade existencial enraíza-se a história, busca que empenha o futuro em descobrir a verdade do passado, luta para subtrair ao poder destrutivo e nulificante do tempo o que é válido e digno de conservação ou lembrança.

44. A história não é conservação integral e automática do passado numa experiência ou consciência universal, nem olhar divino sobre as vicissitudes humanas em busca de suas relações necessárias e eterna contemporaneidade, mas possibilidade e dever de encontrar e reconhecer no próprio passado os aspectos autênticos de verdade e fazê-los valer como norma de limitação e escolha das possibilidades futuras, pois o homem só se conhece e julga no passado, devendo reconhecê-lo sem ilusões nem preconceitos e valer-se das fontes da história, mas todo reconhecimento e juízo é empenho para o futuro, pois, julgando faltas, erros e conquistas autênticas, dispõe seus projetos e as possibilidades que o aguardam, procedendo a investigação histórica por uma escolha de elementos de juízo, instituições, costumes, atitudes ou acontecimentos significativos, justificada apenas se funda sua própria possibilidade e não torna impossível a problematicidade dos acontecimentos, fundamento de todo juízo, pois uma avaliação que imobilizasse a história num esquema predisposto, numa orientação única ou numa ordem progressiva ou regressiva inelutável tornaria impossível o juízo.

45. A problematicidade da história é a da existência que retorna incessantemente a si e busca reconhecer e consolidar suas possibilidades autênticas, vedando o otimismo e o pessimismo, que tentam ligar a sorte da humanidade a uma ordem histórica necessária, mostrando que a ordem está antes adiante e além de nós que atrás, revelando no passado elementos de confiança e esperança ao lado de incerteza e dúvida, e empenhando cada um a trabalhar do melhor modo pelo que deve importar-lhe mais, pelo mais digno e humano.

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