Estrutura da Existência
ABBAGNANO, Nicola. Scritti esistenzialisti. Torino: DEAGOSTINI LIBRI, 2013.
A estrutura da existência (1939)
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Prefácio
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Introdução
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I A filosofia
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II A existência
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III O ente
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IV O mundo
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V A coexistência
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VI O tempo
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VII A história
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VIII A norma
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IX A morte
Prefácio
É possível definir o traço dominante da vida contemporânea com as palavras de Karl Jaspers: “wir haben die Naivität verloren”. A ingenuidade filosófica consistiria hoje em acreditar que o ato de filosofar não tem qualquer efeito sobre aquilo sobre o qual se filosofa; que o objeto da filosofia permanece indiferente por si só, enquanto ela vagueia de um lado para outro, buscando-o e observando-o depois de encontrá-lo. Mas a total irrelevância do ato de filosofar em relação ao objeto deveria levar a excluir desse objeto (ou seja, do ser) a filosofia e o próprio homem, na medida em que ele é capaz de filosofar. Pois, se o ser é indiferente ao ato de filosofar, o próprio ato de filosofar e o homem não podem ser indiferentes a ele: o que significaria que ambos estariam fora do ser. Essa consideração muito simples, mas da qual já não é possível prescindir, demonstra que, em todo caso, a relação entre o ato de filosofar e o ser que é o objeto desse ato é o tema fundamental de toda filosofia.
Mas esse tema já tem um alcance decisivo para a constituição de qualquer filosofia. Ela não pode permanecer fechada em uma esfera circunscrita, isolada do ser, mas deve reconhecer-se e situar-se no próprio ser. Nisso reside a verdadeira concretude da filosofia. O abandono dessa concretude é a queda na ingenuidade filosófica.
Ao se colocar como forma do ser, a filosofia, nesse mesmo ato, distingue-se do ser como problema do ser: como dúvida, interrogação e busca. E estabelece-se, nesse ato, uma relação íntima e essencial entre o ser e a indagação sobre o ser, relação essa que constitui a verdadeira natureza da existência humana.
Assim, a filosofia se subtrai da ingenuidade de sua primeira fase de vida e se apresenta como a realização e a revelação da existência humana em sua natureza. Ela se torna, então, metafísica existencial. É a esse tipo de metafísica que as páginas a seguir pretendem dar uma contribuição.
Nelas se concretiza o significado da existência como estrutura. O movimento que vai da problematicidade constitutiva da vida ao fundamento dessa problematicidade, da possibilidade em posse do homem à possibilidade transcendental constitutiva da posse, é reconhecido como o movimento que coloca o homem em sua finitude; e, dessa liberdade, revela-se então a morte como condição suprema: na fidelidade à morte como aceitação e reconhecimento do risco fundamental da existência, está o verdadeiro destino do homem, a possibilidade de sua constituição autêntica na história.
Ninguém poderá compreender verdadeiramente essas análises se as interpretar como mera especulação ou exercício intelectual; e não enxergar nelas o que elas são: um caminho oferecido ao homem para realizar verdadeiramente sua natureza.
Turim, outono de 1939.
